segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Felicidade da Malícia


Atravesso a praça com pedaladas lentas. As árvores empinam seus galhos carregados de folhas para o azul do céu que não divide seu absoluto com uma nuvem sequer. Está quente e abafado.

Quando acerto a parte central, onde a calçada cede espaço para o chafariz que jaz, seco, veste sua ausência de vida nos azulejos velhos e poeirentos, dois garotinhos cortam meu caminho ingenuamente.

O menor, de uns 6 anos, com a sua franca inocência ainda estampada no face, vem correndo atrás do maior.

- Eu dirijo uma bicicleta que vira moto!! Vvvfvfvfvfvvfffffff.

- Não - responde o maior - não vira moto, é só bicicleta!


Jero Nov. 2011
Pic. Rio do Mel, Mar 2010

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Coração é um Orgão Elástico Mesmo



Eu só queria ter 16 de novo, parar o carro e ficar olhando, atônito, o vai e vem desesperado do limpador do pára-brisas, com um copo de vinho tinto numa mão, o Gudum aceso na outra, já tarde da noite, esperando meu amigo voltar da faculdade, enquanto o radio tocava um k7 do Luna – Tiger Lily : something in her eye, tells that I should try, something into myself, tells run away... enquanto eu não pensava no amanhã, enquanto eu achava que já era homem, sem saber que me tornaria um de verdade somente depois de uma temporada em Londres, enquanto minha obrigação máxima era não ter obrigação. Na real, você descobre que virou homem de verdade quando vai ao médico ou dentista, e, logo após a consulta, deixa parte de seu dinheiro com a secretária. Isso mesmo... não tente me convencer de que você é homem de verdade se ainda não passou a pagar o dentista e o médico com a grana do seu próprio bolso.

Engatei a marcha ré e pressionei o acelerador com a força que faz alguém que deseja abrir o próprio caixão. Parei quando não consegui passar por cima do carro que estava estacionado uns 30 metros de distância de onde eu iniciara a aceleração.
- Preciso falar contigo. Vamos lá fora – disse já tremendo.
Alguns passos e já nos encontrávamos fora da festa, eu e meu irmão. Foi então que ele perguntou:
- O que aconteceu?
- Bati o carro... dei uma “résinha” - disse engolindo a saliva que desceu seca, rasgando minha garganta.
- Vamos lá ver.
Mais alguns breves passos e chegamos ao carro.
- Pô Negão, tu me disse que tinha sido um “résinha”. Que paulada hein meu - disse ele olhando pra parte traseira direita do carro arrebentado.
- O que eu faço agora?
- Fica tranquilo, quando eu tinha a tua idade já tinha entrado embaixo de um caminhão de moto.

Ainda muito amedrontado pelo fato de ter que enfrentar meu pai, peguei o que sobrou do carro dele e fui embora. Estacionei-o contramão, de forma oblíqua, com a porta do motorista bem em frente ao portão de entrada/saída da casa, imaginando que meu pai abriria o portão na manhã seguinte e entraria no carro sem ver o estrago que eu havia feito.

Fechei a porta da frente e observei meu pai agir exatamente como previ. Fiz a volta e coloquei a mão na maçaneta do lado carona, enquanto meus olhos percorriam a lataria destroçada e enviavam ao meu cérebro um album repleto de fotos preto & brancas daquele que seria meu segredo mais íntimo na ocasião. Meu pai vai me matar quando ver isso - pensei aflito e com o coração cheio de medo.

- Tenha uma boa aula filho!
- Bom trabalho pai – disse já fechando a porta e admirando o carro que partia todo torto avenida afora.

Sai da aula e corri em direção a minha casa. Subi no telhado e, mais amedrontado que na noite anterior, fiquei aguardando meus pais chegarem do trabalho. Chegou meu irmão, pai, mãe, outro irmão, uma irmã, mais outro irmão – tenho 5, pra quem não sabe – e eu firme no meu posicionamento de que a partir daquele dia moraria em cima do telhado mesmo, afinal de contas, a vista era privilegiada. Então ouvi o tilintar dos talheres indicando que o almoço estava servido.

Sabe Deus que sempre acreditei na teoria de que todo o mal realizado nos volta de alguma maneira. Estaria ele me castigando por roubar frutas durante parte de minha infância? Ou seria por todas as vezes que menti a minha mãe que já havia tomado banho? Nessa época ela comecou a “comprar” meus banhos com chocolate.

- Oh, glorioso Senhor, estas a me punir por ter vendido injustamente meus banhos? Destruí o carro por não banhar-me periodicamente quando pequeno?

Sendo então merecedor de tal punição, decidido, resolvi pagar minha penitência de uma vez. Despenquei do telhado, abri a porta da frente e com ela o ralo para que toda minha coragem escoasse rapidamente tubulação abaixo. Mas era tarde demais. Baixei a cabeca e lentamente caminhei em direção a mesa. Sentei, servi uma pequena porção de arroz e feijão, cortei meio bife a milanesa, acrescentei ao prato uma pequena quantidade de pure de batatas, e fiz todo o esforço do mundo para engolir a droga da comida toda.

Doze anos se passaram, e meu pai jamais perguntou o que acontecera naquela noite. É, o coração é um orgão elástico mesmo.

Jero Apr. 2005
Pic. Rio Guarita, Apr 2009

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

E falhei, sim, falhei!!


Deita, encosta e cabeça e dorme, ou deixa que o lençol do travesseiro te sufoque. Apinéia de vinte e nove anos. Tranquei a respiração até hoje. Fui a sombra na sombra. Como escrever de giz preto em quadro negro.

A empregada invade meu quarto pra se despedir. Está chorando, pois sua tia falecera. Deve ter sido do odor de alcool que ela exala. Imagino que pensou: ah, hoje é meu ultimo dia de trabalho mesmo, vou embora meio alta.

Alta, preciso ter alta! Alta da angústia, da sabedoria, da dor, da vida! Executa, soma, processa, responde, julga, decide.
Decide
decido
descida
sem freios
Oh Deus, quão rápido eles mudaram tudo.
Quanto lhe devo?
Eu pago, diz ai! Não esquece de cobrar juros, multa e correção monetária. Porque não quero te ver nunca mais e também não quero arrependimento depois. Eu pago tudo de uma vez só, grita quanto é que eu pago. Eu pago, mas por favor, me deixa em paz. Me arranca um braço, mas me deixa em paz!

Vejo raposas na lua e disparo contra ela. Com armas e asas. Isso tudo me dá ânsia de vômito, nojo. Arranco outro pedaço de unha, viro pro lado e cuspo. Acerto o livro de poema do bukowsky aberto:

Which is a double failure: (o que seria um duplo fracasso:)
the failure of people (o fracasso de uma pessoa)
in poetry (na poesia)
and the failure of people (e o fracasso de uma pessoa)
in life. (na vida.)
and when you fail in poetry (e quando você falha na poesia)
you fail life, (você erra a vida,)
and when you fail life (e quando você falha a vida)
you were never born (você nunca nasceu)
no matter what the statistics (não importa o que digam as estatísticas)
or what you mother named you. (nem qual o nome que sua mãe lhe deu.)

Será que falhei na poesia? Será que errei a vida? Oh Deus, eu rogo uma vez mais: cobra que eu pago. Você fez eu esquecer meus sonhos. Nem escrever eu consigo mais. Fico atônito, olhando a barrinha do word piscar na solidão imensa dessa segunda página. Fotografia p&b em céu cinza. A sombra da minha mão na sombra da vida na sombra do mundo em meu teclado branco. Eu amo esse teclado branco. Acho que é uma das poucas coisas que ainda amo nessa vida. Esse teclado branco e minha 250 na garagem. Penso isso tudo enquanto a vida do peixe se esvai em minha mão…

Já atravessou a rua sem olhar pros lados? Faz horas que não consigo mais fazer isso. To sempre vigiando. Observando. Paranóico. Analisando. Desculpas, explicações, falhas, presenças. Cresci numa família de seis filhos, onde a vida inteira os cinco irmãos mais velhos me mostraram o que eu não deveria fazer. Fiquei louco, é isso. E nem esforço fiz.

Vejo o mundo com olhos crus. E isso é cruel. Há quem já tenha me dito que é um dom. Pega pra ti então. Troco pela tua ignorância e falta de bom senso. Porra, como é que se escreve senso? Deve ser com duas pitadas de sabedoria e oito colheres cheias de discernimento.

Sabe, to comecando a odiar essa palavra. Discernimento. O que é discernimento em um mundo onde não há regras, parâmetros, conduta exemplar? Nascer, crescer, estudar, graduar, casar, filhos, um bom trabalho e ser feliz pra sempre… que grande mentira!
Mentira
me tira
me tira daqui, eu nasci no século errado. Ou será que todas as gerações futuras também serão pioneiras no que diz respeito a mudança cultural?

- Senta aqui filha. Conta pro papai: deu pra quantos ontem?

Ontem
Tempo atrás, admirável mundo velho! É só uma canção moderna de rock….
e há um choro final
e o que era ouro vira cinzas
o que era rápido fica lento
o amor torna-se ódio
um choro final
delírio vira loucura
o pai vira copo – isso sempre tem né!
sax em guitarra
um choro final
cão em escorpião
mulher em mãe
um choro final
escorreu
..
.
.
.
.
.
.
.
.
pingou

n o e s p a c o d o
t e c l a d o
b r a n c o



Jero Sep. 2005
Pic. Bolivia, Feb 2006

domingo, 31 de julho de 2011

Luz das Horas Tristes


Esparramo pernas e braços sob os lençóis brancos da cama muda. O som da chuva ativa lembranças longínquas que se misturam à solidão. Suspiro. Um trovão produz um som que não acaba. É como apertar forte a tecla dum piano no silencio. Infinito... E mesmo no meio desse cenário de chuva, raios e solidão, consigo encontrar uma beleza oculta que brilha, invade meus poros e inunda minha alma de luz. Deve ser o que o gênio sente ao sair da garrafa ou ainda o que meu Velho Pai sentia quando entrava nela.

A vida é feita de ciclos. As coisas terminam como começam. Quando eu era garoto e ainda cursava o primeiro grau do ensino médio, com frequência meu pai batia na porta, pedia licença pra professora e me arrancava de dentro da sala de aula para ir pescar. Era um resgate. Num piscar de olhos eu deixava a chatice de uma aula de ciências pela perspectiva de passar uma tarde livre interagindo com a natureza e fisgando sardelas na barranca do rio.

Pescar encabeçava o rol de minhas atividades prediletas até meus 16 anos escancararem as portas de um mundo de amores, tragos e um par de cigarros. Durante a pescaria minha ansiedade ia aumentando na medida em que o sol desaparecia. Minha mente transbordava em cervejas, expectativas, planos, encontros e desencontros. Já a caminho de casa a ansiedade batia no teto quando, conforme o costume encostávamos o carro sob os enormes galhos de uma figueira, onde a estrada de chão cedia espaço para a rodovia já asfaltada:

- Vamos ter que tomar a saideira né - dizia o Velho, já desligando o motor.

- Já tá aberta pai - respondia já espichando o braço entre os bancos do carro e lhe passando a cerveja.

Então eram goles, estórias, mentiras sinceras e risadas em minutos que ainda vivem. Os últimos quilômetros eram percorridos, por vezes, já meio adormecido. Um solavanco. O carro sai da estrada. Ambas laterais, teto e rodas acertam o chão com forca enquanto despenca lentamente barranco abaixo, deixando um rastro de plástico e incertezas na vegetação que vai sendo devastada. Abro a porta. Meu joelho dói. Olho-me no espelho mal conseguindo abrir os olhos. Estou com os cabelos amassados e cara de sono. Abro a torneira e deixo a água escorrer sob meus punhos abertos. Estivera dormindo um sono profundo. Fecho a porta do banheiro e a passos curtos me dirijo à cama. A tecla do trovão no silencio se repete, completando outro ciclo. Minha alma é invadida pela beleza da luz das horas tristes. Estou pronto. Podem subir.

Jero Jul 2011

Pic. Mostardas, Jul 2009


sábado, 9 de julho de 2011

T u m o r S e n t i m e n t a l



O seis digital do relógio perdeu quatro barras, ganhou uma e rapidamente transformou-se num sete. Sete de 6:57 da manhã. Sete de caminhar. Sete de matar sentimentos. Sete de fazer nascer novos conceitos. Sete de descobertas. Sete de decepção. Sete de choro. Sete deitado, oito virado, nove fudido.

Apenas o longo da reta em minha frente. Eu, eu mesmo e a estrada. Dei os primeiros passos, conversei rapidamente com Deus, olhei pra trás e vi o carro desaparecendo no despertar singelo da manha.

Eu e a estrada novamente... do horizonte despencava um lago prateado que perdia-se no meio da escuridão. Certamente poderia ser confundido com um espelho gigante onde Deus mirava seus próprios olhos, enquanto escovava os dentes e pensava que brincadeira faria para alegrar sua manhã. Quais seriam os humanos q ele iria desgraçar? Aposto que havia planejado, antes mesmo que eu percorresse os primeiros kilometros, que meu tumor sentimental ganharia peso, que as metástases sociais (Martin Page) que assolam minha alma continuariam a corroer minha tolerância, lentamente, assim como o mar vai moldando as pedras no vai-e-vem incessante de suas águas.

Caminhei e viajei em pensamentos que, mesmo agora enquanto escarro essas palavras, nao conseguem deixar de bater o cartão-ponto em meu cérebro já desfigurado pela úlcera amorosa que tenta sufocar-me em meu próprio travesseiro durante o repousar de minha cabeça quando a madrugada chega. E quanto mais caminho, mais caminho surge, mais doem meus tendões, mais apertados parecem ficar meus tenis e também meu coração.

Minha testa franze quando os raios de sol acertam, milimetricamente, meus olhos, fazendo com que gotas de suor escorram face abaixo, levando um gosto amargo em minha boca. Gosto de sátira, de gozação, de sacanagem divina. Eu caminho 48 km antes mesmo de alcançar qualquer graça. Sim, porque não se pode enganar Jesus, uma vez que nada foge de seu conhecimento. Caminho visando resgatar o diálogo com Ele. Realizo uma auto-punição antes mesmo de tocar num só fio de cabelo daquilo que tenho buscado. E o que o Senhor me devolve? Qual a sua retribuição? Um tiro de 12 no peito, que estraçalha qualquer pretensão de viver uma manhã de domingo a dois. Um tiro de 12 que derruba e faz com que o mundo inteiro fique de cabeça pra baixo. Desabo de cara no chão, com os olhos a contemplar os últimos movimentos que a vida permite, agonizando a mais profunda das dores.

Rapidamente todos os pecados cometidos jorram para fora de meu corpo e, na velocidade de um raio, acabo virando uma sombra de mim mesmo. Não há mais sangue em meu corpo, dor em meus joelhos, 21 gramas em minha alma. Meu esqueleto cefálico está esfarelado. Arrasto-me por dezenas de mil metros em busca de meu eu perdido. Em busca de um gosto diferente daquele que por insistência instalou-se em meu hálito, em minha boca.

Boca sedenta onde sequer ha deserto. Deserto de mim mesmo.
Deserto.
De certo me engoliu com seus dentes afiados. Me engoliu com sua voz rouca, mastigou meu núcleo, rasgou minha carne com seus caninos, moeu o pouco que restou de mim com seus molares e cuspiu fora como se bagaço fosse. E o que eu digo sobre isso: thank u for making me see there`s life in me!

Desde então luto a cada despertar com todas as forças que tenho. Luto por afago, aconchego e por gostar de quem gosta de mim. E olha, tenho empilhado derrotas, perdido batalhas em cima de batalhas. Andei perdendo tanto que até pedir aos santos resolvi. Mas acho que o meu andou caindo e se machucando um pouco. Mas vão ter que fazer ainda muito mais, pois vai ser sem santo, foguete e aspirina... a benção final!

Jero Jun 2005
Pic. Mostardas, Jul 2009
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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aflora e a Fauna





Meus pêlos eram arrancados pela lâmina, que seca, texturizava minha face. Maldita hora de realizar boa ação e ficar sem creme de barbear. Maldita hora de resolver fazer a barba, depois de dois anos de abstinência total a palidez de minha pele facial que salta aos olhos quando nua fica. Maldito dia. Maldito Deus. Sim, quero ser expurgado do paraíso, quero que se foda. Como disse certa vez uma amiga que nunca encontrei, é quando estamos tristes que o melhor da gente aflora. Então tá ai C., meu melhor vai aflorar hoje. E vai te engolir, já que isso eu não consegui fazer. Meu melhor vai aflorar. Vai, aflora! A flora e a fauna. A fauna que convive comigo. Creme de barbear de Ramamelis, amigo que buzina pedindo emprestado o memory stick, peixe colocando pânico no aquário, Fundo de Investimentos, o Carmelo gritando no meu quarto, meu amigo japa que não conheci, a prestação da moto, o livro do Kerouac que nunca tive coragem de abrir, o amigo que leva 10 dias pra tomar um café comigo, a empregada que ganha uma miséria e ainda sustenta o pai que é doente… socorro!

Socorro, só corro, corro e meu joelho dói. Assim como a dor que sinto agora expele de minhas veias a energia negativa acumulada, e rasga meus poros fazendo com que eu fique mais imune á toda sujeira existente nessa porra de mundo que habitamos. Não, eu não pertenço a esse lugar. Eu não pertenço a esse plano espiritual pobre e feio. Eu não nasci pra bater porta. Eu nasci pra virar mesa. Eu nasci pra cortar grama no verão e beber vinho tinto no inverno. Eu sou alienígena. E se Deus ficar bravo comigo e me expurgar, eu me teletransporto lá pra dentro de novo. Dentro dela, quentinho, bem devagarinho, devagarinho como o dia em que cheguei de mansinho no escritório do meu irmão e peguei ele exatamente na hora em que ejaculara nas próprias mãos.

Ri, ele riu também. Riu, rio que me leva. Rio Guarita, Rio de Janeiro. Rio Guarita que leva meus sonhos através de suas curvas sinuosas, através de seus barrancos e de suas águas turvas. Rio de Janeiro que carrega minha vida num mergulho no Arpoador, num chopp barato na esquina, no por do sol que funde o arranha-céu com a favela e o azul infinito do mar. Mar que espuma, assim como ódio, como cachorro, como jogador expulso do jogo. Faz parte desse jogo, dizer ao mundo todo, que só conhece o seu quinhão ruim… Sim, esse é meu quinhão ruim, a inveja que transcende o consciente, a cumplicidade entre loucura e covardia.
- Pai, o senhor viu que tem um de seus passarinhos que está ferido logo acima do bico?
- Não.
- E tá em carne viva pai!
- Não vi. Qual?
- Esse pai – disse-lhe apontando para a gaiola.
- Mas é o meu campeão, homem!!
Sim, loucura, covardia, amor, ética, simplicidade, compreensão, conservadorismo, relatos de uma vida que se acaba em outra Bohemia destampada. Fácil, assim, fim.








Jero Mar 2006




Pic. Amazonia, May 2008





quarta-feira, 8 de junho de 2011

More than a lot!


Eis meu problema: me injetaram disciplina demais no cérebro.

Pic. Mostardas, Sep 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma Tarde de Solidão




Tarde cinzenta, típica de inverno. As ruas se exibem molhadas pra solidão das calçadas. Solidão que quebro a passos lentos e pensamentos intensos. Alcanço a Osvaldo e contemplo os coqueiros que se perdem nas nuvens carregadas do céu. O barco de meus sentimentos atravessa o Atlântico e atraca em Londres, onde caminhava em tardes de muito frio e fog, abandonado, como se fosse um estranho no mundo.

A medida que encurto os passos, comeco a conversar em voz alta comigo mesmo. E me pergunto se não ando falando pouco com Deus por andar falando muito comigo mesmo. Ando falando pouco com Deus por andar falando muito comigo? Não que eu fosse Deus ou algo qualquer que se pareça. Mas se Deus está em toda parte, ele também está comigo agora. E se está comigo agora, ao falar comigo mesmo, falo também com Deus. Então percebo que o sentimento que tenho ao dialogar comigo mesmo é exatamente o mesmo daquele que tenho ao explanar para Deus. Tudo se encaixa de forma curiosa.

Alongo os passos para atravessar a rua e pedir um cigarro de canela avulso. Acendo, puxo, não prendo e solto a fumaça, o braço esquerdo, a voz que acompanha Solenm Thirsty ao pé do ouvido, a lágrima que corre o rosto e estraçalha junto ao chão úmido de gotas que despencam do céu.

Sinal vermelho. Pára onibus. Caminho eu. Um cego esquizofrênico, sem mover os pés, balança seu corpo para frente e para tras num vai-e-vem incessante. Segura seu cajado junto ao peito e vocifera palavras cruas ao vento gelado da noite que tenta nascer. Fala com alguém que nem mesmo ele pode ver:

- Sexta-feira é atropelamento.

É tudo que escuto ao passar por ele, sem interromper o olhar ao distante telhado da galeria. Telhado que me carrega novamente a Londres. Me carrega para Convent Garden, para um triste passeio solitário através dos malabaristas, palhacos e mímicos que ganham a vida de trocado em trocado.

A buzina de um carro faz com que eu volte a Osvaldo. Levo a mão ao bolso, pego o celular e ligo para mim mesmo, na intenção de deixar uma mensagem de voz com os principais tópicos do que agora escrevo. Não funciona. Então ligo para o celular de um amigo pensando em deixar um recado pra ele. Novo fracasso. Sequer atravessei o oceano pela primeira vez. O tempo pra deixar a mensagem não permitiu. Aliás, o tempo nos impede de tanta coisa.

Entro em uma loja de roupas onde descolo um papel e um bloco de anotações. Sento-me no banco que fica em frente a loja, dou uma tragada e comeco a rascunhar os últimos minutos vividos.

- É o senhor que está fumando um cigarro de canela – indaga um mendigo.
- É sim – respondo.
- Tem um sobrando?
- Pô, não tenho.
- Eu te compro – afirma ele puxando algumas notas amassadas do bolso de suas calças.
- Não tenho mesmo, comprei esse avulso.

Vira-se, encara a calçada brevemente e parte.Volto ao texto. Risco duas palavras e acabo voltando minha atenção ao mendigo. Caminhara não mais que dez metros. Assovio. Ele pára, gira seu tronco e olha para mim. Faço sinal para que volte.

- Eu divido o cigarro contigo. Pode ficar com o que restou – digo estendendo-lhe a mão.
- Dizem que é bom pra gripe né!?
- Cara, eu acho que isso só pode piorar a sua gripe. Mas com certeza pode te fazer um bem danado pra alma.

Toca o fone. Atendo.

- Traga sal e carvão!

Jero Sep 2005
Pic. Mostardas, Apr 2011
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sábado, 12 de março de 2011

Talento Puro












(...) sentia raiva. Uma raiva incontida. Sentia raiva das coisas, das pessoas. Sentia raiva da vida. Até os objetos lhe proporcionavam o crescimento de tal sentimento. Olhava para uma cadeira e tinha vontade de quebra-la.


Nessas ocasiões conseguia extrair o que cada pessoa tinha de pior, somente num rápido olhar. Se proferisse tudo o que sentia sobre uma pessoa qualquer, fosse um estranho, um familiar ou ainda um grande amigo, faria com que esta se sentisse um lixo. Seus pensamentos compilavam os piores adjetivos que alguém sozinho, alguém por si só, não teria conhecimento suficiente para elenca-los.


Não era uma forma de pensar ou de ver o mundo. Ele sentia isso tudo. Era desprezo. Desprezo pela pessoa alheia, pelo sol - se sol fizesse - , pela chuva - se chovendo estivesse - , pelo coração pulsando, pelo ar que respirava.


Não era razão ou a falta dela. Era sentimento puro, nato, branco. Ele sentia isso tudo. Estava entranhado ao longo de cada milímetro de seu aparelho circulatório. Em suas veias corria uma acidez implacável, imbatível.


Qualquer palavra que lhe dirigissem era rebatida com impetuosidade. Seu cérebro tencionava e guarnecia-se de palavras feito uma espingarda. Qualquer toque no gatilho, por mais suave que fosse, resultava em pólvora, adjetivos e verbos acertando tudo e todos que o cercassem.


Como era de se esperar, essa raiva incontida provocava ressacas sentimentais e, em inúmeras oportunidades, revelava a hipocrisia alheia daqueles que tinham o péssimo hábito de dissimular. Era um defeito, lógico, mas era realizado com tamanha facilidade que se tornava talento puro. Era fácil como pescar num barril.


Jero Dec 2010

Pic. Palmeira das Missoes, May 2009

domingo, 23 de janeiro de 2011

Grito Engarrafado



Acordou tarde. Demorou meio minuto para abrir os olhos e, assim que o fez, sentiu a claridade acertando sua face. Caminhou até o banheiro, abriu a torneira e deixou que a água escorresse através de seus pulsos. Quando a água já havia percorrido toda a superfície de suas mãos, levou-as ao encontro de seu rosto pálido, levantou a cabeça, e ficou encarando a si próprio, enquanto as gotas zigue-zagueavam a barba por fazer e rolavam em direção ao queixo.




Era um daqueles dias em que todas as dúvidas afloram. Como se cada dúvida fosse uma formiga e sua cabeça fosse uma bala de caramelo esquecida no chão. Então o formigueiro devora todos os bons sentimentos, fazendo restar apenas uma vontade imensa de não existir. É diferente da vontade de morrer. É uma vontade além. Uma vontade de nunca ter existido.




Pressionou a toalha contra a umidade de suas bochechas, baixou os olhos e deixou o banheiro. À passos lentos voltou ao quarto. Já deitado, fitou o teto. Percebeu que a vida as vezes se parece com pregos: tortos, enferrujados e sustentados por uma cabeça amassada por martelos.




Abriu a janela e deixou que o restante da claridade invadisse o quarto e ofuscasse o indicador da bateria do notebook. On. Pressionou o random e recebeu de troco um "Migala 10 instruções para dar corda num relógio". Sentiu uma dor súbita no lado esquerdo do peito. Percebeu que sua vontade de nunca ter existido transformara-se no desejo de ser alguém. No desejo de não ter sido um ninguém a vida toda. É como conduzir o carro numa rodovia federal. Você sente um imã atraindo o veículo para a direção contrária. Então você puxa o volante para o lado certo. E ele vai na direção oposta. E você puxa novamente. E começa a enxergar a faixa continua indicando "proibido ultrapassar". Faz força. Puxa. Ele insiste em ir para o lado que você não deseja. Segue puxando. E quando você percebe, um par de rodas já caiu no acostamento contramão. E então sua dor no peito sinalizara o desejo de um coração novo. Sentiu que aquele que insistira bater em seu peito estava condenado, falido. Pontes de safena não desobstruiriam as artérias ao ponto de bombear toda a dor que lá habitara por tanto tempo.




Sentou-se na cama e acendeu um cigarro, puxou e sentiu a fumaça entrando de forma profunda em seus pulmões, infeccionando suas células, que imediatamente, começavam a expelir um líquido viscoso, de tom amarelado. Pensou nas variáveis infinitas da vida. Para onde o teria levado o beijo não dado, a palavra não dita, as frases ríspidas, o atraso para o vôo, a rejeição da oferta do emprego, o ficar em casa lendo Heavier than Heaven num domingo de sol, o convite para jantar não aceito.




Fechou as janelas, acendeu duas velas sete dias e o random caiu em


please forgive me


if I appear unkind


but any fool can tell you


it`s all in your mind (…)




poor little girl


with you handful of snow


poor little girl


had no way to know




Apagou a luz e voltou a deitar. Adormeceu por uma dúzia de minutos. Acordou encharcado de suor. Transpirara excessivamente durante o curto sono conduzido pelo estado quase hipnótico de sua fadiga. Seu fígado, na noite anterior, absorvera mais do que uma pessoa normal seria capaz. Tocou sua camiseta e sentiu-a completamente molhada. Levantou-se. Sentou-se a beira da cama. Antes de encostar o chão, seus pés afundaram em suor. Sentiu a densidade de todo aquele líquido que fazia o carpete se parecer mais com um espelho gigante a refletir a luminária do aquário que descansava sob o móvel. Então o nível de suor começou a crescer. Quando percebeu, suas canelas já estavam completamente submersas. Em seu quarto boiavam angústias em fotografias, solidão em cds, sonhos em hot wheels, uma cadeira vazia, uma imagem de Buda levantando o dedo médio para Cristo e um grito engarrafado numa Absolut.




Desesperado, lembrou-se. Abriu a porta que dividia o quarto do banheiro e saiu correndo. Deixara a torneira aberta.




Jero 2008


Pic. Amsterdam, Oct 2010



domingo, 16 de janeiro de 2011

Borboleta Azul


Tenho uma borboleta na mao

desde ontem eu tenho uma borboleta azul

que serpenteia suas asas no dorso de minha mao direita

esparramando meu sangue vermelho feito tinta Pollock.

Estou muito doente pra rezar, Senhor

nao tenho forcas pra levantar meus bracos pintados ao ceu

e ainda que as tivesse

nao o faria

pois devo confessar

penso no senhor com certa furia no olhar

certa cólera

Hoje pela manha

enquanto a enfermeira me furava pela sétima vez no dia

fitei os azulejos rosas das paredes da emergencia

e ouvi o choro incessante do bebê atendido logo ao lado

O Senhor colocou apenas uma parede entre nós

Jogo dos sentidos

Foi sufciciente para impedir minha visao

mas pouco, muito pouco para impossibilitar

que eu escutasse o tom desesperador em seus urros

fazendo dele um gato

que na eminencia de ser atacado por uma matilha

ouriçado

arca a extensao de seu corpo e chora feito um bebe

Foi tao pouco que fui capaz de ve-lo através de seus gritos

e gemidos incessantes…

Se houvesse o poder da escolha

a surdez naquele ûnico momento

por outras dez agulhas penetrando em minhas veias já não tão limpas

seria uma bela troca

Mas entre azulejos e agulhas

nasceu a lembrança de que meu velho se fora ha exatos 365 dias atrás

numa tarde chuvosa de inverno

Tal como o soro que desaparecia

nos esparadrapos que seguram minha borboleta azul

derrubei uma lágrima

que desapareceu no caminho entre meu olho esquerdo

e o travesseiro da maca hospitalar

Uma lágrima contida

feita de aniversário

veias furadas

grunhidos do pequeno bebê amedrontado pela matilha

Uma lágrima de orgulho pela herança da vida

Uma só lagrima e sinto que ja posso lhe dirigir a palavra, Senhor.

Por favor, leve minha borboleta azul

nesse momento

eu so quero os bracos limpos


Jero, de bracos pintados, 17/ago/2009

Pic. Palmeira das Missões, Nov 2009


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Afogou-se




Baixou a tampa do vaso, sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as maos até as bochechas, em posição de choro. Permaneceu ali ao longo de minutos. Perdeu a noção do tempo. Um quarto de hora talvez. Pensava em nada. Pensava nos porques da vida. Transitava entre opostos, afinal, tudo era uma questão de perspectiva. O sol surgiu de tras de uma nuvem, atravessou a janela e acertou seu Topper barato comprado numa loja fuleira da 18 de Julho, em Montevideo. No primeiro instante a luminosidade proporcionou a observação do rejunte sujo entre os azulejos gastos que cobriam o chão. Quanta coisa já não teriam presenciado aqueles azulejos. No instante subsequente, a luz potencializou o escuro da sombra que era formada pela parede que sustentava a janela. Pensava que assim como o sol fazia brilhar o velho azulejo e ao mesmo tempo reforçava o negro da sombra, a vida apresentava uma linha muito tenue entre a felicidade e a desgraça. Bastava um clique para trocar o azul de uma praia quente do atlantico pelo cinza impregnado nas edificações comunistas da europa oriental. Os dois poderiam ser belos, é verdade. Mas a agua tem um certo efeito terapeutico, repositor de energias, a passo que as paredes emitem sinais que, embora imaginarios, são carregados de zunidos de balas que rasgam os céus, e de sangue turvo, viscoso, vermelho rubi.


Estava cansado, era verdade. Mas também era verdade que os ultimos dias haviam lhe exigido mais do que seu parco tempo lhe permitia. Seus dias já não tinham mais vinte e quatro horas. Era forçado a cumprir pequenas tarefas alheias que, quando somadas, lhe reduziam a vida e lhe aumentavam a fabricação natural de toxinas inebriantes. Por vezes sentia algum orgao interno formigar. E quando isso ocorria, desejava com ardor que as formigas lhe acertassem o propulsor da alma.


Fitou os azulejos com tamanha força que seu olhar perdeu o foco. Não era exatamente a perda do foco, mas sim olhar pra algo sem enxergar, parecendo que o objeto, pessoa ou qualquer coisa que o valha, olhado, não existe, não está ali. Então sua visão raio x atravessou argamassa, tijolos, pêlo, pele e músculos, aterrisando na estrada poeirenta que circunda parte da lagoa, que por sua vez fica ao lado do rio onde costumava pescar com seu Pai, desde seus dois anos e meio de idade. O Velho destampava uma - que nao era a primeira do dia - , ajeitava seu banquinho de madeira no pesqueiro e acendia um Charme longo. As cinzas do cigarro eram cuidadosamente depositadas no cinzeiro que o Velho trazia de casa. Duas ou três horas após o anoitecer, preparando-se para voltar pra casa, recolhia as esperas, juntava o dito cinzeiro de madeira samelo e jogava todo seu conteúdo para o alto. Nunca entendeu porque o Velho levava o cinzeiro e depois espalhava pelo mato a sujeira toda. Nunca entendeu porque o Velho suicidou-se, entre um copo e outro, paulatinamente. Nunca entendeu a dupla personalidade do Velho: o homem alegre e carismático na rua que, ao pisar em sua vivenda, transformava-se no homem amargo, obscuro, que infundia tristeza a todos que lhe cercassem. Nunca entendeu o porque de não ter dito ao seu Velho Pai tudo o que precisava. Tempo tivera, pois acompanhou de muito perto sua enfermidade avançar impiedosamente. Acompanhara seus devaneios causados pela encefalopatia, que lhe acertara em cheio, feito um jab nocauteador.

- Abre a bragueta, Bruno. Abre a bragueta, Bruno – recitava repetidamente em estado mental alterado, referindo-se ao irmão já morto.


O sol escondeu-se atrás de uma pequena nuvem e levou consigo a luminosidade e o escuro da sombra. Seu cérebro voltou a comandar seus olhos agora turvos. Sentiu uma pontada no peito. Uma dor aguda. O medo oriundo da hipótese de seu Velho Pai ter partido sentindo que não era amado, lhe sangrou o espírito. Dizia que o amava com frequência, mas sentia um misto de afeição e raiva, por vê-lo mergulhar em sua piscina de amargura que, embora não profunda, tinha dor e arrependimento suficientes para afogar qualquer um. A aflição que sentia encontrava alicerce nas frustrantes tentativas em jogar um salva vidas para evitar o afogamento do Velho. Tentativas que, sabia ele, em diversas ocasiões, resultavam em feridas verbais. Cobrava de si mesmo o porque de ter falhado. O que deveria ter feito para um desfecho diferente do ocorrido. Mas essa era apenas mais uma, dentre sua infindável lista de perguntas que ficavam sem respostas.


Juntou as mãos em forma de uma concha, abriu a torneira e jogou água entre os olhos que escorreu ligeiramente até seu queixo. O dia estava quente e abafado. Enxugou-se, serviu uma xícara de café preto e voltou ao trabalho. Mesmo sem respostas, o relógio seguia girando.




Jero 20/dez/2010

Pic. Palmeira das Missões, Sep 2009