Baixou a tampa do vaso, sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as maos até as bochechas, em posição de choro. Permaneceu ali ao longo de minutos. Perdeu a noção do tempo. Um quarto de hora talvez. Pensava em nada. Pensava nos porques da vida. Transitava entre opostos, afinal, tudo era uma questão de perspectiva. O sol surgiu de tras de uma nuvem, atravessou a janela e acertou seu Topper barato comprado numa loja fuleira da 18 de Julho, em Montevideo. No primeiro instante a luminosidade proporcionou a observação do rejunte sujo entre os azulejos gastos que cobriam o chão. Quanta coisa já não teriam presenciado aqueles azulejos. No instante subsequente, a luz potencializou o escuro da sombra que era formada pela parede que sustentava a janela. Pensava que assim como o sol fazia brilhar o velho azulejo e ao mesmo tempo reforçava o negro da sombra, a vida apresentava uma linha muito tenue entre a felicidade e a desgraça. Bastava um clique para trocar o azul de uma praia quente do atlantico pelo cinza impregnado nas edificações comunistas da europa oriental. Os dois poderiam ser belos, é verdade. Mas a agua tem um certo efeito terapeutico, repositor de energias, a passo que as paredes emitem sinais que, embora imaginarios, são carregados de zunidos de balas que rasgam os céus, e de sangue turvo, viscoso, vermelho rubi.
Estava cansado, era verdade. Mas também era verdade que os ultimos dias haviam lhe exigido mais do que seu parco tempo lhe permitia. Seus dias já não tinham mais vinte e quatro horas. Era forçado a cumprir pequenas tarefas alheias que, quando somadas, lhe reduziam a vida e lhe aumentavam a fabricação natural de toxinas inebriantes. Por vezes sentia algum orgao interno formigar. E quando isso ocorria, desejava com ardor que as formigas lhe acertassem o propulsor da alma.
Fitou os azulejos com tamanha força que seu olhar perdeu o foco. Não era exatamente a perda do foco, mas sim olhar pra algo sem enxergar, parecendo que o objeto, pessoa ou qualquer coisa que o valha, olhado, não existe, não está ali. Então sua visão raio x atravessou argamassa, tijolos, pêlo, pele e músculos, aterrisando na estrada poeirenta que circunda parte da lagoa, que por sua vez fica ao lado do rio onde costumava pescar com seu Pai, desde seus dois anos e meio de idade. O Velho destampava uma - que nao era a primeira do dia - , ajeitava seu banquinho de madeira no pesqueiro e acendia um Charme longo. As cinzas do cigarro eram cuidadosamente depositadas no cinzeiro que o Velho trazia de casa. Duas ou três horas após o anoitecer, preparando-se para voltar pra casa, recolhia as esperas, juntava o dito cinzeiro de madeira samelo e jogava todo seu conteúdo para o alto. Nunca entendeu porque o Velho levava o cinzeiro e depois espalhava pelo mato a sujeira toda. Nunca entendeu porque o Velho suicidou-se, entre um copo e outro, paulatinamente. Nunca entendeu a dupla personalidade do Velho: o homem alegre e carismático na rua que, ao pisar em sua vivenda, transformava-se no homem amargo, obscuro, que infundia tristeza a todos que lhe cercassem. Nunca entendeu o porque de não ter dito ao seu Velho Pai tudo o que precisava. Tempo tivera, pois acompanhou de muito perto sua enfermidade avançar impiedosamente. Acompanhara seus devaneios causados pela encefalopatia, que lhe acertara em cheio, feito um jab nocauteador.
- Abre a bragueta, Bruno. Abre a bragueta, Bruno – recitava repetidamente em estado mental alterado, referindo-se ao irmão já morto.
O sol escondeu-se atrás de uma pequena nuvem e levou consigo a luminosidade e o escuro da sombra. Seu cérebro voltou a comandar seus olhos agora turvos. Sentiu uma pontada no peito. Uma dor aguda. O medo oriundo da hipótese de seu Velho Pai ter partido sentindo que não era amado, lhe sangrou o espírito. Dizia que o amava com frequência, mas sentia um misto de afeição e raiva, por vê-lo mergulhar em sua piscina de amargura que, embora não profunda, tinha dor e arrependimento suficientes para afogar qualquer um. A aflição que sentia encontrava alicerce nas frustrantes tentativas em jogar um salva vidas para evitar o afogamento do Velho. Tentativas que, sabia ele, em diversas ocasiões, resultavam em feridas verbais. Cobrava de si mesmo o porque de ter falhado. O que deveria ter feito para um desfecho diferente do ocorrido. Mas essa era apenas mais uma, dentre sua infindável lista de perguntas que ficavam sem respostas.
Juntou as mãos em forma de uma concha, abriu a torneira e jogou água entre os olhos que escorreu ligeiramente até seu queixo. O dia estava quente e abafado. Enxugou-se, serviu uma xícara de café preto e voltou ao trabalho. Mesmo sem respostas, o relógio seguia girando.
Jero 20/dez/2010
Pic. Palmeira das Missões, Sep 2009
tah classudo o teu blog!!!!
ResponderExcluirdeverias colocar aquele das borboletas azuis
to sick to pray lord...
tem tantas neh??
abs, love, hugo