domingo, 16 de janeiro de 2011

Borboleta Azul


Tenho uma borboleta na mao

desde ontem eu tenho uma borboleta azul

que serpenteia suas asas no dorso de minha mao direita

esparramando meu sangue vermelho feito tinta Pollock.

Estou muito doente pra rezar, Senhor

nao tenho forcas pra levantar meus bracos pintados ao ceu

e ainda que as tivesse

nao o faria

pois devo confessar

penso no senhor com certa furia no olhar

certa cólera

Hoje pela manha

enquanto a enfermeira me furava pela sétima vez no dia

fitei os azulejos rosas das paredes da emergencia

e ouvi o choro incessante do bebê atendido logo ao lado

O Senhor colocou apenas uma parede entre nós

Jogo dos sentidos

Foi sufciciente para impedir minha visao

mas pouco, muito pouco para impossibilitar

que eu escutasse o tom desesperador em seus urros

fazendo dele um gato

que na eminencia de ser atacado por uma matilha

ouriçado

arca a extensao de seu corpo e chora feito um bebe

Foi tao pouco que fui capaz de ve-lo através de seus gritos

e gemidos incessantes…

Se houvesse o poder da escolha

a surdez naquele ûnico momento

por outras dez agulhas penetrando em minhas veias já não tão limpas

seria uma bela troca

Mas entre azulejos e agulhas

nasceu a lembrança de que meu velho se fora ha exatos 365 dias atrás

numa tarde chuvosa de inverno

Tal como o soro que desaparecia

nos esparadrapos que seguram minha borboleta azul

derrubei uma lágrima

que desapareceu no caminho entre meu olho esquerdo

e o travesseiro da maca hospitalar

Uma lágrima contida

feita de aniversário

veias furadas

grunhidos do pequeno bebê amedrontado pela matilha

Uma lágrima de orgulho pela herança da vida

Uma só lagrima e sinto que ja posso lhe dirigir a palavra, Senhor.

Por favor, leve minha borboleta azul

nesse momento

eu so quero os bracos limpos


Jero, de bracos pintados, 17/ago/2009

Pic. Palmeira das Missões, Nov 2009


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