
Tenho uma borboleta na mao
desde ontem eu tenho uma borboleta azul
que serpenteia suas asas no dorso de minha mao direita
esparramando meu sangue vermelho feito tinta Pollock.
Estou muito doente pra rezar, Senhor
nao tenho forcas pra levantar meus bracos pintados ao ceu
e ainda que as tivesse
nao o faria
pois devo confessar
penso no senhor com certa furia no olhar
certa cólera
Hoje pela manha
enquanto a enfermeira me furava pela sétima vez no dia
fitei os azulejos rosas das paredes da emergencia
e ouvi o choro incessante do bebê atendido logo ao lado
O Senhor colocou apenas uma parede entre nós
Jogo dos sentidos
Foi sufciciente para impedir minha visao
mas pouco, muito pouco para impossibilitar
que eu escutasse o tom desesperador em seus urros
fazendo dele um gato
que na eminencia de ser atacado por uma matilha
ouriçado
arca a extensao de seu corpo e chora feito um bebe
Foi tao pouco que fui capaz de ve-lo através de seus gritos
e gemidos incessantes…
Se houvesse o poder da escolha
a surdez naquele ûnico momento
por outras dez agulhas penetrando em minhas veias já não tão limpas
seria uma bela troca
Mas entre azulejos e agulhas
nasceu a lembrança de que meu velho se fora ha exatos 365 dias atrás
numa tarde chuvosa de inverno
Tal como o soro que desaparecia
nos esparadrapos que seguram minha borboleta azul
derrubei uma lágrima
que desapareceu no caminho entre meu olho esquerdo
e o travesseiro da maca hospitalar
Uma lágrima contida
feita de aniversário
veias furadas
grunhidos do pequeno bebê amedrontado pela matilha
Uma lágrima de orgulho pela herança da vida
Uma só lagrima e sinto que ja posso lhe dirigir a palavra, Senhor.
Por favor, leve minha borboleta azul
nesse momento
eu so quero os bracos limpos
Jero, de bracos pintados, 17/ago/2009
Pic. Palmeira das Missões, Nov 2009
essa eh a obra prima
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