sábado, 9 de julho de 2011

T u m o r S e n t i m e n t a l



O seis digital do relógio perdeu quatro barras, ganhou uma e rapidamente transformou-se num sete. Sete de 6:57 da manhã. Sete de caminhar. Sete de matar sentimentos. Sete de fazer nascer novos conceitos. Sete de descobertas. Sete de decepção. Sete de choro. Sete deitado, oito virado, nove fudido.

Apenas o longo da reta em minha frente. Eu, eu mesmo e a estrada. Dei os primeiros passos, conversei rapidamente com Deus, olhei pra trás e vi o carro desaparecendo no despertar singelo da manha.

Eu e a estrada novamente... do horizonte despencava um lago prateado que perdia-se no meio da escuridão. Certamente poderia ser confundido com um espelho gigante onde Deus mirava seus próprios olhos, enquanto escovava os dentes e pensava que brincadeira faria para alegrar sua manhã. Quais seriam os humanos q ele iria desgraçar? Aposto que havia planejado, antes mesmo que eu percorresse os primeiros kilometros, que meu tumor sentimental ganharia peso, que as metástases sociais (Martin Page) que assolam minha alma continuariam a corroer minha tolerância, lentamente, assim como o mar vai moldando as pedras no vai-e-vem incessante de suas águas.

Caminhei e viajei em pensamentos que, mesmo agora enquanto escarro essas palavras, nao conseguem deixar de bater o cartão-ponto em meu cérebro já desfigurado pela úlcera amorosa que tenta sufocar-me em meu próprio travesseiro durante o repousar de minha cabeça quando a madrugada chega. E quanto mais caminho, mais caminho surge, mais doem meus tendões, mais apertados parecem ficar meus tenis e também meu coração.

Minha testa franze quando os raios de sol acertam, milimetricamente, meus olhos, fazendo com que gotas de suor escorram face abaixo, levando um gosto amargo em minha boca. Gosto de sátira, de gozação, de sacanagem divina. Eu caminho 48 km antes mesmo de alcançar qualquer graça. Sim, porque não se pode enganar Jesus, uma vez que nada foge de seu conhecimento. Caminho visando resgatar o diálogo com Ele. Realizo uma auto-punição antes mesmo de tocar num só fio de cabelo daquilo que tenho buscado. E o que o Senhor me devolve? Qual a sua retribuição? Um tiro de 12 no peito, que estraçalha qualquer pretensão de viver uma manhã de domingo a dois. Um tiro de 12 que derruba e faz com que o mundo inteiro fique de cabeça pra baixo. Desabo de cara no chão, com os olhos a contemplar os últimos movimentos que a vida permite, agonizando a mais profunda das dores.

Rapidamente todos os pecados cometidos jorram para fora de meu corpo e, na velocidade de um raio, acabo virando uma sombra de mim mesmo. Não há mais sangue em meu corpo, dor em meus joelhos, 21 gramas em minha alma. Meu esqueleto cefálico está esfarelado. Arrasto-me por dezenas de mil metros em busca de meu eu perdido. Em busca de um gosto diferente daquele que por insistência instalou-se em meu hálito, em minha boca.

Boca sedenta onde sequer ha deserto. Deserto de mim mesmo.
Deserto.
De certo me engoliu com seus dentes afiados. Me engoliu com sua voz rouca, mastigou meu núcleo, rasgou minha carne com seus caninos, moeu o pouco que restou de mim com seus molares e cuspiu fora como se bagaço fosse. E o que eu digo sobre isso: thank u for making me see there`s life in me!

Desde então luto a cada despertar com todas as forças que tenho. Luto por afago, aconchego e por gostar de quem gosta de mim. E olha, tenho empilhado derrotas, perdido batalhas em cima de batalhas. Andei perdendo tanto que até pedir aos santos resolvi. Mas acho que o meu andou caindo e se machucando um pouco. Mas vão ter que fazer ainda muito mais, pois vai ser sem santo, foguete e aspirina... a benção final!

Jero Jun 2005
Pic. Mostardas, Jul 2009
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