domingo, 23 de janeiro de 2011

Grito Engarrafado



Acordou tarde. Demorou meio minuto para abrir os olhos e, assim que o fez, sentiu a claridade acertando sua face. Caminhou até o banheiro, abriu a torneira e deixou que a água escorresse através de seus pulsos. Quando a água já havia percorrido toda a superfície de suas mãos, levou-as ao encontro de seu rosto pálido, levantou a cabeça, e ficou encarando a si próprio, enquanto as gotas zigue-zagueavam a barba por fazer e rolavam em direção ao queixo.




Era um daqueles dias em que todas as dúvidas afloram. Como se cada dúvida fosse uma formiga e sua cabeça fosse uma bala de caramelo esquecida no chão. Então o formigueiro devora todos os bons sentimentos, fazendo restar apenas uma vontade imensa de não existir. É diferente da vontade de morrer. É uma vontade além. Uma vontade de nunca ter existido.




Pressionou a toalha contra a umidade de suas bochechas, baixou os olhos e deixou o banheiro. À passos lentos voltou ao quarto. Já deitado, fitou o teto. Percebeu que a vida as vezes se parece com pregos: tortos, enferrujados e sustentados por uma cabeça amassada por martelos.




Abriu a janela e deixou que o restante da claridade invadisse o quarto e ofuscasse o indicador da bateria do notebook. On. Pressionou o random e recebeu de troco um "Migala 10 instruções para dar corda num relógio". Sentiu uma dor súbita no lado esquerdo do peito. Percebeu que sua vontade de nunca ter existido transformara-se no desejo de ser alguém. No desejo de não ter sido um ninguém a vida toda. É como conduzir o carro numa rodovia federal. Você sente um imã atraindo o veículo para a direção contrária. Então você puxa o volante para o lado certo. E ele vai na direção oposta. E você puxa novamente. E começa a enxergar a faixa continua indicando "proibido ultrapassar". Faz força. Puxa. Ele insiste em ir para o lado que você não deseja. Segue puxando. E quando você percebe, um par de rodas já caiu no acostamento contramão. E então sua dor no peito sinalizara o desejo de um coração novo. Sentiu que aquele que insistira bater em seu peito estava condenado, falido. Pontes de safena não desobstruiriam as artérias ao ponto de bombear toda a dor que lá habitara por tanto tempo.




Sentou-se na cama e acendeu um cigarro, puxou e sentiu a fumaça entrando de forma profunda em seus pulmões, infeccionando suas células, que imediatamente, começavam a expelir um líquido viscoso, de tom amarelado. Pensou nas variáveis infinitas da vida. Para onde o teria levado o beijo não dado, a palavra não dita, as frases ríspidas, o atraso para o vôo, a rejeição da oferta do emprego, o ficar em casa lendo Heavier than Heaven num domingo de sol, o convite para jantar não aceito.




Fechou as janelas, acendeu duas velas sete dias e o random caiu em


please forgive me


if I appear unkind


but any fool can tell you


it`s all in your mind (…)




poor little girl


with you handful of snow


poor little girl


had no way to know




Apagou a luz e voltou a deitar. Adormeceu por uma dúzia de minutos. Acordou encharcado de suor. Transpirara excessivamente durante o curto sono conduzido pelo estado quase hipnótico de sua fadiga. Seu fígado, na noite anterior, absorvera mais do que uma pessoa normal seria capaz. Tocou sua camiseta e sentiu-a completamente molhada. Levantou-se. Sentou-se a beira da cama. Antes de encostar o chão, seus pés afundaram em suor. Sentiu a densidade de todo aquele líquido que fazia o carpete se parecer mais com um espelho gigante a refletir a luminária do aquário que descansava sob o móvel. Então o nível de suor começou a crescer. Quando percebeu, suas canelas já estavam completamente submersas. Em seu quarto boiavam angústias em fotografias, solidão em cds, sonhos em hot wheels, uma cadeira vazia, uma imagem de Buda levantando o dedo médio para Cristo e um grito engarrafado numa Absolut.




Desesperado, lembrou-se. Abriu a porta que dividia o quarto do banheiro e saiu correndo. Deixara a torneira aberta.




Jero 2008


Pic. Amsterdam, Oct 2010



domingo, 16 de janeiro de 2011

Borboleta Azul


Tenho uma borboleta na mao

desde ontem eu tenho uma borboleta azul

que serpenteia suas asas no dorso de minha mao direita

esparramando meu sangue vermelho feito tinta Pollock.

Estou muito doente pra rezar, Senhor

nao tenho forcas pra levantar meus bracos pintados ao ceu

e ainda que as tivesse

nao o faria

pois devo confessar

penso no senhor com certa furia no olhar

certa cólera

Hoje pela manha

enquanto a enfermeira me furava pela sétima vez no dia

fitei os azulejos rosas das paredes da emergencia

e ouvi o choro incessante do bebê atendido logo ao lado

O Senhor colocou apenas uma parede entre nós

Jogo dos sentidos

Foi sufciciente para impedir minha visao

mas pouco, muito pouco para impossibilitar

que eu escutasse o tom desesperador em seus urros

fazendo dele um gato

que na eminencia de ser atacado por uma matilha

ouriçado

arca a extensao de seu corpo e chora feito um bebe

Foi tao pouco que fui capaz de ve-lo através de seus gritos

e gemidos incessantes…

Se houvesse o poder da escolha

a surdez naquele ûnico momento

por outras dez agulhas penetrando em minhas veias já não tão limpas

seria uma bela troca

Mas entre azulejos e agulhas

nasceu a lembrança de que meu velho se fora ha exatos 365 dias atrás

numa tarde chuvosa de inverno

Tal como o soro que desaparecia

nos esparadrapos que seguram minha borboleta azul

derrubei uma lágrima

que desapareceu no caminho entre meu olho esquerdo

e o travesseiro da maca hospitalar

Uma lágrima contida

feita de aniversário

veias furadas

grunhidos do pequeno bebê amedrontado pela matilha

Uma lágrima de orgulho pela herança da vida

Uma só lagrima e sinto que ja posso lhe dirigir a palavra, Senhor.

Por favor, leve minha borboleta azul

nesse momento

eu so quero os bracos limpos


Jero, de bracos pintados, 17/ago/2009

Pic. Palmeira das Missões, Nov 2009


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Afogou-se




Baixou a tampa do vaso, sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as maos até as bochechas, em posição de choro. Permaneceu ali ao longo de minutos. Perdeu a noção do tempo. Um quarto de hora talvez. Pensava em nada. Pensava nos porques da vida. Transitava entre opostos, afinal, tudo era uma questão de perspectiva. O sol surgiu de tras de uma nuvem, atravessou a janela e acertou seu Topper barato comprado numa loja fuleira da 18 de Julho, em Montevideo. No primeiro instante a luminosidade proporcionou a observação do rejunte sujo entre os azulejos gastos que cobriam o chão. Quanta coisa já não teriam presenciado aqueles azulejos. No instante subsequente, a luz potencializou o escuro da sombra que era formada pela parede que sustentava a janela. Pensava que assim como o sol fazia brilhar o velho azulejo e ao mesmo tempo reforçava o negro da sombra, a vida apresentava uma linha muito tenue entre a felicidade e a desgraça. Bastava um clique para trocar o azul de uma praia quente do atlantico pelo cinza impregnado nas edificações comunistas da europa oriental. Os dois poderiam ser belos, é verdade. Mas a agua tem um certo efeito terapeutico, repositor de energias, a passo que as paredes emitem sinais que, embora imaginarios, são carregados de zunidos de balas que rasgam os céus, e de sangue turvo, viscoso, vermelho rubi.


Estava cansado, era verdade. Mas também era verdade que os ultimos dias haviam lhe exigido mais do que seu parco tempo lhe permitia. Seus dias já não tinham mais vinte e quatro horas. Era forçado a cumprir pequenas tarefas alheias que, quando somadas, lhe reduziam a vida e lhe aumentavam a fabricação natural de toxinas inebriantes. Por vezes sentia algum orgao interno formigar. E quando isso ocorria, desejava com ardor que as formigas lhe acertassem o propulsor da alma.


Fitou os azulejos com tamanha força que seu olhar perdeu o foco. Não era exatamente a perda do foco, mas sim olhar pra algo sem enxergar, parecendo que o objeto, pessoa ou qualquer coisa que o valha, olhado, não existe, não está ali. Então sua visão raio x atravessou argamassa, tijolos, pêlo, pele e músculos, aterrisando na estrada poeirenta que circunda parte da lagoa, que por sua vez fica ao lado do rio onde costumava pescar com seu Pai, desde seus dois anos e meio de idade. O Velho destampava uma - que nao era a primeira do dia - , ajeitava seu banquinho de madeira no pesqueiro e acendia um Charme longo. As cinzas do cigarro eram cuidadosamente depositadas no cinzeiro que o Velho trazia de casa. Duas ou três horas após o anoitecer, preparando-se para voltar pra casa, recolhia as esperas, juntava o dito cinzeiro de madeira samelo e jogava todo seu conteúdo para o alto. Nunca entendeu porque o Velho levava o cinzeiro e depois espalhava pelo mato a sujeira toda. Nunca entendeu porque o Velho suicidou-se, entre um copo e outro, paulatinamente. Nunca entendeu a dupla personalidade do Velho: o homem alegre e carismático na rua que, ao pisar em sua vivenda, transformava-se no homem amargo, obscuro, que infundia tristeza a todos que lhe cercassem. Nunca entendeu o porque de não ter dito ao seu Velho Pai tudo o que precisava. Tempo tivera, pois acompanhou de muito perto sua enfermidade avançar impiedosamente. Acompanhara seus devaneios causados pela encefalopatia, que lhe acertara em cheio, feito um jab nocauteador.

- Abre a bragueta, Bruno. Abre a bragueta, Bruno – recitava repetidamente em estado mental alterado, referindo-se ao irmão já morto.


O sol escondeu-se atrás de uma pequena nuvem e levou consigo a luminosidade e o escuro da sombra. Seu cérebro voltou a comandar seus olhos agora turvos. Sentiu uma pontada no peito. Uma dor aguda. O medo oriundo da hipótese de seu Velho Pai ter partido sentindo que não era amado, lhe sangrou o espírito. Dizia que o amava com frequência, mas sentia um misto de afeição e raiva, por vê-lo mergulhar em sua piscina de amargura que, embora não profunda, tinha dor e arrependimento suficientes para afogar qualquer um. A aflição que sentia encontrava alicerce nas frustrantes tentativas em jogar um salva vidas para evitar o afogamento do Velho. Tentativas que, sabia ele, em diversas ocasiões, resultavam em feridas verbais. Cobrava de si mesmo o porque de ter falhado. O que deveria ter feito para um desfecho diferente do ocorrido. Mas essa era apenas mais uma, dentre sua infindável lista de perguntas que ficavam sem respostas.


Juntou as mãos em forma de uma concha, abriu a torneira e jogou água entre os olhos que escorreu ligeiramente até seu queixo. O dia estava quente e abafado. Enxugou-se, serviu uma xícara de café preto e voltou ao trabalho. Mesmo sem respostas, o relógio seguia girando.




Jero 20/dez/2010

Pic. Palmeira das Missões, Sep 2009