Acordou tarde. Demorou meio minuto para abrir os olhos e, assim que o fez, sentiu a claridade acertando sua face. Caminhou até o banheiro, abriu a torneira e deixou que a água escorresse através de seus pulsos. Quando a água já havia percorrido toda a superfície de suas mãos, levou-as ao encontro de seu rosto pálido, levantou a cabeça, e ficou encarando a si próprio, enquanto as gotas zigue-zagueavam a barba por fazer e rolavam em direção ao queixo.
Era um daqueles dias em que todas as dúvidas afloram. Como se cada dúvida fosse uma formiga e sua cabeça fosse uma bala de caramelo esquecida no chão. Então o formigueiro devora todos os bons sentimentos, fazendo restar apenas uma vontade imensa de não existir. É diferente da vontade de morrer. É uma vontade além. Uma vontade de nunca ter existido.
Pressionou a toalha contra a umidade de suas bochechas, baixou os olhos e deixou o banheiro. À passos lentos voltou ao quarto. Já deitado, fitou o teto. Percebeu que a vida as vezes se parece com pregos: tortos, enferrujados e sustentados por uma cabeça amassada por martelos.
Abriu a janela e deixou que o restante da claridade invadisse o quarto e ofuscasse o indicador da bateria do notebook. On. Pressionou o random e recebeu de troco um "Migala 10 instruções para dar corda num relógio". Sentiu uma dor súbita no lado esquerdo do peito. Percebeu que sua vontade de nunca ter existido transformara-se no desejo de ser alguém. No desejo de não ter sido um ninguém a vida toda. É como conduzir o carro numa rodovia federal. Você sente um imã atraindo o veículo para a direção contrária. Então você puxa o volante para o lado certo. E ele vai na direção oposta. E você puxa novamente. E começa a enxergar a faixa continua indicando "proibido ultrapassar". Faz força. Puxa. Ele insiste em ir para o lado que você não deseja. Segue puxando. E quando você percebe, um par de rodas já caiu no acostamento contramão. E então sua dor no peito sinalizara o desejo de um coração novo. Sentiu que aquele que insistira bater em seu peito estava condenado, falido. Pontes de safena não desobstruiriam as artérias ao ponto de bombear toda a dor que lá habitara por tanto tempo.
Sentou-se na cama e acendeu um cigarro, puxou e sentiu a fumaça entrando de forma profunda em seus pulmões, infeccionando suas células, que imediatamente, começavam a expelir um líquido viscoso, de tom amarelado. Pensou nas variáveis infinitas da vida. Para onde o teria levado o beijo não dado, a palavra não dita, as frases ríspidas, o atraso para o vôo, a rejeição da oferta do emprego, o ficar em casa lendo Heavier than Heaven num domingo de sol, o convite para jantar não aceito.
Fechou as janelas, acendeu duas velas sete dias e o random caiu em
please forgive me
if I appear unkind
but any fool can tell you
it`s all in your mind (…)
poor little girl
with you handful of snow
poor little girl
had no way to know
Apagou a luz e voltou a deitar. Adormeceu por uma dúzia de minutos. Acordou encharcado de suor. Transpirara excessivamente durante o curto sono conduzido pelo estado quase hipnótico de sua fadiga. Seu fígado, na noite anterior, absorvera mais do que uma pessoa normal seria capaz. Tocou sua camiseta e sentiu-a completamente molhada. Levantou-se. Sentou-se a beira da cama. Antes de encostar o chão, seus pés afundaram em suor. Sentiu a densidade de todo aquele líquido que fazia o carpete se parecer mais com um espelho gigante a refletir a luminária do aquário que descansava sob o móvel. Então o nível de suor começou a crescer. Quando percebeu, suas canelas já estavam completamente submersas. Em seu quarto boiavam angústias em fotografias, solidão em cds, sonhos em hot wheels, uma cadeira vazia, uma imagem de Buda levantando o dedo médio para Cristo e um grito engarrafado numa Absolut.
Desesperado, lembrou-se. Abriu a porta que dividia o quarto do banheiro e saiu correndo. Deixara a torneira aberta.
Jero 2008
Pic. Amsterdam, Oct 2010
