Esparramo pernas e braços sob os lençóis brancos da cama muda. O som da chuva ativa lembranças longínquas que se misturam à solidão. Suspiro. Um trovão produz um som que não acaba. É como apertar forte a tecla dum piano no silencio. Infinito... E mesmo no meio desse cenário de chuva, raios e solidão, consigo encontrar uma beleza oculta que brilha, invade meus poros e inunda minha alma de luz. Deve ser o que o gênio sente ao sair da garrafa ou ainda o que meu Velho Pai sentia quando entrava nela.
A vida é feita de ciclos. As coisas terminam como começam. Quando eu era garoto e ainda cursava o primeiro grau do ensino médio, com frequência meu pai batia na porta, pedia licença pra professora e me arrancava de dentro da sala de aula para ir pescar. Era um resgate. Num piscar de olhos eu deixava a chatice de uma aula de ciências pela perspectiva de passar uma tarde livre interagindo com a natureza e fisgando sardelas na barranca do rio.
Pescar encabeçava o rol de minhas atividades prediletas até meus 16 anos escancararem as portas de um mundo de amores, tragos e um par de cigarros. Durante a pescaria minha ansiedade ia aumentando na medida em que o sol desaparecia. Minha mente transbordava em cervejas, expectativas, planos, encontros e desencontros. Já a caminho de casa a ansiedade batia no teto quando, conforme o costume encostávamos o carro sob os enormes galhos de uma figueira, onde a estrada de chão cedia espaço para a rodovia já asfaltada:
- Vamos ter que tomar a saideira né - dizia o Velho, já desligando o motor.
- Já tá aberta pai - respondia já espichando o braço entre os bancos do carro e lhe passando a cerveja.
Então eram goles, estórias, mentiras sinceras e risadas em minutos que ainda vivem. Os últimos quilômetros eram percorridos, por vezes, já meio adormecido. Um solavanco. O carro sai da estrada. Ambas laterais, teto e rodas acertam o chão com forca enquanto despenca lentamente barranco abaixo, deixando um rastro de plástico e incertezas na vegetação que vai sendo devastada. Abro a porta. Meu joelho dói. Olho-me no espelho mal conseguindo abrir os olhos. Estou com os cabelos amassados e cara de sono. Abro a torneira e deixo a água escorrer sob meus punhos abertos. Estivera dormindo um sono profundo. Fecho a porta do banheiro e a passos curtos me dirijo à cama. A tecla do trovão no silencio se repete, completando outro ciclo. Minha alma é invadida pela beleza da luz das horas tristes. Estou pronto. Podem subir.
Jero Jul 2011
Pic. Mostardas, Jul 2009