domingo, 31 de julho de 2011

Luz das Horas Tristes


Esparramo pernas e braços sob os lençóis brancos da cama muda. O som da chuva ativa lembranças longínquas que se misturam à solidão. Suspiro. Um trovão produz um som que não acaba. É como apertar forte a tecla dum piano no silencio. Infinito... E mesmo no meio desse cenário de chuva, raios e solidão, consigo encontrar uma beleza oculta que brilha, invade meus poros e inunda minha alma de luz. Deve ser o que o gênio sente ao sair da garrafa ou ainda o que meu Velho Pai sentia quando entrava nela.

A vida é feita de ciclos. As coisas terminam como começam. Quando eu era garoto e ainda cursava o primeiro grau do ensino médio, com frequência meu pai batia na porta, pedia licença pra professora e me arrancava de dentro da sala de aula para ir pescar. Era um resgate. Num piscar de olhos eu deixava a chatice de uma aula de ciências pela perspectiva de passar uma tarde livre interagindo com a natureza e fisgando sardelas na barranca do rio.

Pescar encabeçava o rol de minhas atividades prediletas até meus 16 anos escancararem as portas de um mundo de amores, tragos e um par de cigarros. Durante a pescaria minha ansiedade ia aumentando na medida em que o sol desaparecia. Minha mente transbordava em cervejas, expectativas, planos, encontros e desencontros. Já a caminho de casa a ansiedade batia no teto quando, conforme o costume encostávamos o carro sob os enormes galhos de uma figueira, onde a estrada de chão cedia espaço para a rodovia já asfaltada:

- Vamos ter que tomar a saideira né - dizia o Velho, já desligando o motor.

- Já tá aberta pai - respondia já espichando o braço entre os bancos do carro e lhe passando a cerveja.

Então eram goles, estórias, mentiras sinceras e risadas em minutos que ainda vivem. Os últimos quilômetros eram percorridos, por vezes, já meio adormecido. Um solavanco. O carro sai da estrada. Ambas laterais, teto e rodas acertam o chão com forca enquanto despenca lentamente barranco abaixo, deixando um rastro de plástico e incertezas na vegetação que vai sendo devastada. Abro a porta. Meu joelho dói. Olho-me no espelho mal conseguindo abrir os olhos. Estou com os cabelos amassados e cara de sono. Abro a torneira e deixo a água escorrer sob meus punhos abertos. Estivera dormindo um sono profundo. Fecho a porta do banheiro e a passos curtos me dirijo à cama. A tecla do trovão no silencio se repete, completando outro ciclo. Minha alma é invadida pela beleza da luz das horas tristes. Estou pronto. Podem subir.

Jero Jul 2011

Pic. Mostardas, Jul 2009


sábado, 9 de julho de 2011

T u m o r S e n t i m e n t a l



O seis digital do relógio perdeu quatro barras, ganhou uma e rapidamente transformou-se num sete. Sete de 6:57 da manhã. Sete de caminhar. Sete de matar sentimentos. Sete de fazer nascer novos conceitos. Sete de descobertas. Sete de decepção. Sete de choro. Sete deitado, oito virado, nove fudido.

Apenas o longo da reta em minha frente. Eu, eu mesmo e a estrada. Dei os primeiros passos, conversei rapidamente com Deus, olhei pra trás e vi o carro desaparecendo no despertar singelo da manha.

Eu e a estrada novamente... do horizonte despencava um lago prateado que perdia-se no meio da escuridão. Certamente poderia ser confundido com um espelho gigante onde Deus mirava seus próprios olhos, enquanto escovava os dentes e pensava que brincadeira faria para alegrar sua manhã. Quais seriam os humanos q ele iria desgraçar? Aposto que havia planejado, antes mesmo que eu percorresse os primeiros kilometros, que meu tumor sentimental ganharia peso, que as metástases sociais (Martin Page) que assolam minha alma continuariam a corroer minha tolerância, lentamente, assim como o mar vai moldando as pedras no vai-e-vem incessante de suas águas.

Caminhei e viajei em pensamentos que, mesmo agora enquanto escarro essas palavras, nao conseguem deixar de bater o cartão-ponto em meu cérebro já desfigurado pela úlcera amorosa que tenta sufocar-me em meu próprio travesseiro durante o repousar de minha cabeça quando a madrugada chega. E quanto mais caminho, mais caminho surge, mais doem meus tendões, mais apertados parecem ficar meus tenis e também meu coração.

Minha testa franze quando os raios de sol acertam, milimetricamente, meus olhos, fazendo com que gotas de suor escorram face abaixo, levando um gosto amargo em minha boca. Gosto de sátira, de gozação, de sacanagem divina. Eu caminho 48 km antes mesmo de alcançar qualquer graça. Sim, porque não se pode enganar Jesus, uma vez que nada foge de seu conhecimento. Caminho visando resgatar o diálogo com Ele. Realizo uma auto-punição antes mesmo de tocar num só fio de cabelo daquilo que tenho buscado. E o que o Senhor me devolve? Qual a sua retribuição? Um tiro de 12 no peito, que estraçalha qualquer pretensão de viver uma manhã de domingo a dois. Um tiro de 12 que derruba e faz com que o mundo inteiro fique de cabeça pra baixo. Desabo de cara no chão, com os olhos a contemplar os últimos movimentos que a vida permite, agonizando a mais profunda das dores.

Rapidamente todos os pecados cometidos jorram para fora de meu corpo e, na velocidade de um raio, acabo virando uma sombra de mim mesmo. Não há mais sangue em meu corpo, dor em meus joelhos, 21 gramas em minha alma. Meu esqueleto cefálico está esfarelado. Arrasto-me por dezenas de mil metros em busca de meu eu perdido. Em busca de um gosto diferente daquele que por insistência instalou-se em meu hálito, em minha boca.

Boca sedenta onde sequer ha deserto. Deserto de mim mesmo.
Deserto.
De certo me engoliu com seus dentes afiados. Me engoliu com sua voz rouca, mastigou meu núcleo, rasgou minha carne com seus caninos, moeu o pouco que restou de mim com seus molares e cuspiu fora como se bagaço fosse. E o que eu digo sobre isso: thank u for making me see there`s life in me!

Desde então luto a cada despertar com todas as forças que tenho. Luto por afago, aconchego e por gostar de quem gosta de mim. E olha, tenho empilhado derrotas, perdido batalhas em cima de batalhas. Andei perdendo tanto que até pedir aos santos resolvi. Mas acho que o meu andou caindo e se machucando um pouco. Mas vão ter que fazer ainda muito mais, pois vai ser sem santo, foguete e aspirina... a benção final!

Jero Jun 2005
Pic. Mostardas, Jul 2009
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