sexta-feira, 20 de março de 2015

Plágios de Einstein



Em velocidade moderada, pedalou até alcançar a frente de casa. Levou a mão ao bolso, buscando o controle remoto do portão eletrônico. Foi quando percebeu que todos os sons que ouvia naquele instante vinham, exclusivamente, da natureza. A temperatura escondeu o calor do verão e fez parecer começo de outono. O vento assobiou grave e dividiu a atenção da audição com o latido de um cão solitário que, ao final da rua, empinou seu focinho para o céu. Penduradas, densas nuvens cinzas e negras espalharam seus algodões das mais variadas formas. Dos algodões, chorou uma chuva fina, esparsa, agradável. Mais refrescava que molhava. 


Minutos transcorreram sem que o cenário sofresse qualquer alteração contextual. Não houve qualquer manifestação do que não era vida. O tempo havia congelado as pessoas. Experimente dissecar um segundo em 24 horas.  Seria preciso uma semana inteira para tomar um gole d’agua. Dessa forma, a manifestação humana era tão sutil que sequer emitia som ou movimento. Era tudo imperceptível. Mas a regra não se aplicava á natureza que seguia seu movimento com 60 segundos dentro de cada minuto. Os raios de sol atravessavam as nuvens no horizonte e cumpriam com entusiasmo o fechamento de mais um ciclo. Na esquina abaixo, um cavalo meneava a cabeça numa clara tentativa de livrar-se dos mosquitos que lhe circundavam os olhos.


Abriu a boca e assim que um par de gotas lhe acertou, recolheu a língua e cerrou lábios e pensamentos. Retraiu a mandíbula com toda a força de seu masseter e relaxou o músculo em seguida, levando toda a atenção para as gotas que agora, misturadas com a saliva, azeitavam sua garganta. Teve a sensação de que também iria parar, congelar. Sentiu o coração acertar o peito repetidamente. Se pudesse eternizar um momento, que fosse aquele. Encheu os pulmões com o aroma da terra que recebia a chuva e transbordou gratidão pela vida. Estava fodido, é bem verdade. Mas já se acostumara com as vicissitudes de tal forma que para derrubá-lo, era preciso um caminhão carregado do mesmo. E isso, até então, a vida ainda não havia se encarregado de lhe entregar.

Jero, Dec, 2014.
Pic. Dublin, Oct 2014.