Em velocidade moderada, pedalou até alcançar a
frente de casa. Levou a mão ao bolso, buscando o controle remoto do portão
eletrônico. Foi quando percebeu que todos os sons que ouvia naquele instante
vinham, exclusivamente, da natureza. A temperatura escondeu o calor do verão e
fez parecer começo de outono. O vento assobiou grave e dividiu a atenção da
audição com o latido de um cão solitário que, ao final da rua, empinou seu
focinho para o céu. Penduradas, densas nuvens cinzas e negras espalharam seus
algodões das mais variadas formas. Dos algodões, chorou uma chuva fina,
esparsa, agradável. Mais refrescava que molhava.
Minutos transcorreram sem que o cenário sofresse
qualquer alteração contextual. Não houve qualquer manifestação do que não era
vida. O tempo havia congelado as pessoas. Experimente dissecar um segundo em 24
horas. Seria preciso uma semana inteira para tomar um gole d’agua. Dessa
forma, a manifestação humana era tão sutil que sequer emitia som ou movimento.
Era tudo imperceptível. Mas a regra não se aplicava á natureza que seguia seu
movimento com 60 segundos dentro de cada minuto. Os raios de sol atravessavam
as nuvens no horizonte e cumpriam com entusiasmo o fechamento de mais um ciclo.
Na esquina abaixo, um cavalo meneava a cabeça numa clara tentativa de livrar-se
dos mosquitos que lhe circundavam os olhos.
Abriu a boca e assim que um par de gotas lhe
acertou, recolheu a língua e cerrou lábios e pensamentos. Retraiu a mandíbula
com toda a força de seu masseter e relaxou o músculo em seguida, levando toda a
atenção para as gotas que agora, misturadas com a saliva, azeitavam sua
garganta. Teve a sensação de que também iria parar, congelar. Sentiu o coração acertar o
peito repetidamente. Se pudesse eternizar um momento, que fosse aquele. Encheu
os pulmões com o aroma da terra que recebia a chuva e transbordou gratidão pela
vida. Estava fodido, é bem verdade. Mas já se acostumara com as vicissitudes de
tal forma que para derrubá-lo, era preciso um caminhão carregado do mesmo. E
isso, até então, a vida ainda não havia se encarregado de lhe entregar.
Jero, Dec, 2014.
Pic. Dublin, Oct 2014.
Pic. Dublin, Oct 2014.
