segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tem Um Copo de Leite Rasgando Meu Peito





e quando acordei estava tudo tão cinza

com uma tristeza difusa no ar

confuso

e meu coração que insiste em bombear

feito roda gigante em dia de chuva

sonhos direto pra minha ventuinha da alma

muito devagar

abriu as portas

do abismo

e caí forte

levantei - sempre levanto - perdido

e de curva em curva

andei reto

a esmo

onde?



e tudo aquilo que eu não pude ver

embaçou

e tropecei dentro de mim mesmo

riscando nuvens no céu negro

com as mão sujas de giz branco

de cor em cor

um dia claro de azul

sem obrigações

exceto um café no sol do inverno

e um par de cigarros que não façam mal

que a vida não faça mal

que eu esqueça eu mesmo

e lembre de tudo

da infância 

dos valores que me moldaram no que eu sou

ou

pelo menos

naquilo que quero me tornar

estranho

estranho é enganar a si mesmo

estranho é o meu reflexo

no espelho sujo de fuligem branca

mais cores

e meu coração vomita um copo de leite

que rasga o peito

e tão sozinho de saudade

tomo a saideira com meu velho embaixo da árvore

na esquina São Bento

e assim

mesmo confuso

mesmo tão cinza

eu vou viver

sim

eu vou viver

pra sempre

com um pé no chão

e a alma no céu.




Jero, Oct, 2013.

Pic. Itália, Aug 2013 - By Victor Hugo Cecatto