quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Alma Colcha de Retalhos


Tive uma febre
um cachorro
uma sutura de cinco pontos no queixo que carrego até hoje
uma borboleta azul
lebres
vermes e lebres

Não quero nada pronto
empacotado
estrada reta
camarote - pode existir coisa mais brega?
carregador de malas
GPS nas férias

Fico com bulas e remédios
fico fraco
o fraco
o fracasso efêmero á estupidez do acerto comprado

Quando era criança

tive uma febre violenta
e três anos depois
outra sutura de mais cinco pontos no queixo que trago até hoje
cicatrizes que se cruzam
unindo carne e pele
e da segunda sutura nasceu um problema
me injetaram disciplina demais no cérebro
programado para dar certo
demasiado máquina
mas na geração errada

E de acerto em acerto

abuso de erros
wabi sabi
feito humano
L. Cohen has done his bit
eu não
ainda não estou pronto
Está me ouvindo?
ouvindo
ou indo

Comprimo e compacto sentimentos e emoções

espremo
aperto entre uma frase e outra
sem caligrafia
certeza
tenaz
um suco
um soco
uma lembrança
doída
um suspiro profundo
e divido o mundo em dois
um pra estragar
e outro pra fazer certo
estragando tudo

E de estrago em estrago

me arrebento
reinvento
e resucito
quase sem ar
perdido
outro suspiro
e mais duas portas se abrem
e novamente na escolha
fracasso
outra sutura
alma colcha de retalhos


Não preciso mais oxigênio que isso...





Jero, Nov, 2013.

Pic. Palmeira, Nov 2013.
 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tem Um Copo de Leite Rasgando Meu Peito





e quando acordei estava tudo tão cinza

com uma tristeza difusa no ar

confuso

e meu coração que insiste em bombear

feito roda gigante em dia de chuva

sonhos direto pra minha ventuinha da alma

muito devagar

abriu as portas

do abismo

e caí forte

levantei - sempre levanto - perdido

e de curva em curva

andei reto

a esmo

onde?



e tudo aquilo que eu não pude ver

embaçou

e tropecei dentro de mim mesmo

riscando nuvens no céu negro

com as mão sujas de giz branco

de cor em cor

um dia claro de azul

sem obrigações

exceto um café no sol do inverno

e um par de cigarros que não façam mal

que a vida não faça mal

que eu esqueça eu mesmo

e lembre de tudo

da infância 

dos valores que me moldaram no que eu sou

ou

pelo menos

naquilo que quero me tornar

estranho

estranho é enganar a si mesmo

estranho é o meu reflexo

no espelho sujo de fuligem branca

mais cores

e meu coração vomita um copo de leite

que rasga o peito

e tão sozinho de saudade

tomo a saideira com meu velho embaixo da árvore

na esquina São Bento

e assim

mesmo confuso

mesmo tão cinza

eu vou viver

sim

eu vou viver

pra sempre

com um pé no chão

e a alma no céu.




Jero, Oct, 2013.

Pic. Itália, Aug 2013 - By Victor Hugo Cecatto

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cego







My best unbeaten brother, this isn't all I see
I see black and gray
I see a cup of tea
I see we`re just going on
through a full size ashtray

I wish I didn`t have this nose

I see a darkness

and nothing beyond it

nada

dada

dado o tempo

que se foda

foda fog

there`s a little child running round this house

- uma carteira de gudang por favor!

- aqui está.

- pode trocar por favor... não gosto muito desse do enfisema pulmonar. Me consegue aquele que dá câncer cerebral. É meu preferido.

prefiro a dor nas pernas resultante de exercício físicos á moleza do sedentarismo

anapana meditation

here I go

I cannot see the darkness

I`m blind

I`m fucking blind

em são sebastião do fundo

embaixo da figueira do Dr Edegar

estou cego

estirado na grama

sentindo o vento roçar meu nariz

cego

all gray

cego

de olhos abertos

cego de tanto ver

e não enxergar nada

além do cinza infinito do céu que engole a terra


Pic. Palmeira das Missões, Dec 2012