Eu só queria ter 16 de novo, parar o carro e ficar olhando, atônito, o vai e vem desesperado do limpador do pára-brisas, com um copo de vinho tinto numa mão, o Gudum aceso na outra, já tarde da noite, esperando meu amigo voltar da faculdade, enquanto o radio tocava um k7 do Luna – Tiger Lily : something in her eye, tells that I should try, something into myself, tells run away... enquanto eu não pensava no amanhã, enquanto eu achava que já era homem, sem saber que me tornaria um de verdade somente depois de uma temporada em Londres, enquanto minha obrigação máxima era não ter obrigação. Na real, você descobre que virou homem de verdade quando vai ao médico ou dentista, e, logo após a consulta, deixa parte de seu dinheiro com a secretária. Isso mesmo... não tente me convencer de que você é homem de verdade se ainda não passou a pagar o dentista e o médico com a grana do seu próprio bolso.
Engatei a marcha ré e pressionei o acelerador com a força que faz alguém que deseja abrir o próprio caixão. Parei quando não consegui passar por cima do carro que estava estacionado uns 30 metros de distância de onde eu iniciara a aceleração.
- Preciso falar contigo. Vamos lá fora – disse já tremendo.
Alguns passos e já nos encontrávamos fora da festa, eu e meu irmão. Foi então que ele perguntou:
- O que aconteceu?
- Bati o carro... dei uma “résinha” - disse engolindo a saliva que desceu seca, rasgando minha garganta.
- Vamos lá ver.
Mais alguns breves passos e chegamos ao carro.
- Pô Negão, tu me disse que tinha sido um “résinha”. Que paulada hein meu - disse ele olhando pra parte traseira direita do carro arrebentado.
- O que eu faço agora?
- Fica tranquilo, quando eu tinha a tua idade já tinha entrado embaixo de um caminhão de moto.
Ainda muito amedrontado pelo fato de ter que enfrentar meu pai, peguei o que sobrou do carro dele e fui embora. Estacionei-o contramão, de forma oblíqua, com a porta do motorista bem em frente ao portão de entrada/saída da casa, imaginando que meu pai abriria o portão na manhã seguinte e entraria no carro sem ver o estrago que eu havia feito.
Fechei a porta da frente e observei meu pai agir exatamente como previ. Fiz a volta e coloquei a mão na maçaneta do lado carona, enquanto meus olhos percorriam a lataria destroçada e enviavam ao meu cérebro um album repleto de fotos preto & brancas daquele que seria meu segredo mais íntimo na ocasião. Meu pai vai me matar quando ver isso - pensei aflito e com o coração cheio de medo.
- Tenha uma boa aula filho!
- Bom trabalho pai – disse já fechando a porta e admirando o carro que partia todo torto avenida afora.
Sai da aula e corri em direção a minha casa. Subi no telhado e, mais amedrontado que na noite anterior, fiquei aguardando meus pais chegarem do trabalho. Chegou meu irmão, pai, mãe, outro irmão, uma irmã, mais outro irmão – tenho 5, pra quem não sabe – e eu firme no meu posicionamento de que a partir daquele dia moraria em cima do telhado mesmo, afinal de contas, a vista era privilegiada. Então ouvi o tilintar dos talheres indicando que o almoço estava servido.
Sabe Deus que sempre acreditei na teoria de que todo o mal realizado nos volta de alguma maneira. Estaria ele me castigando por roubar frutas durante parte de minha infância? Ou seria por todas as vezes que menti a minha mãe que já havia tomado banho? Nessa época ela comecou a “comprar” meus banhos com chocolate.
- Oh, glorioso Senhor, estas a me punir por ter vendido injustamente meus banhos? Destruí o carro por não banhar-me periodicamente quando pequeno?
Sendo então merecedor de tal punição, decidido, resolvi pagar minha penitência de uma vez. Despenquei do telhado, abri a porta da frente e com ela o ralo para que toda minha coragem escoasse rapidamente tubulação abaixo. Mas era tarde demais. Baixei a cabeca e lentamente caminhei em direção a mesa. Sentei, servi uma pequena porção de arroz e feijão, cortei meio bife a milanesa, acrescentei ao prato uma pequena quantidade de pure de batatas, e fiz todo o esforço do mundo para engolir a droga da comida toda.
Doze anos se passaram, e meu pai jamais perguntou o que acontecera naquela noite. É, o coração é um orgão elástico mesmo.
Jero Apr. 2005
Pic. Rio Guarita, Apr 2009