segunda-feira, 29 de agosto de 2011

E falhei, sim, falhei!!


Deita, encosta e cabeça e dorme, ou deixa que o lençol do travesseiro te sufoque. Apinéia de vinte e nove anos. Tranquei a respiração até hoje. Fui a sombra na sombra. Como escrever de giz preto em quadro negro.

A empregada invade meu quarto pra se despedir. Está chorando, pois sua tia falecera. Deve ter sido do odor de alcool que ela exala. Imagino que pensou: ah, hoje é meu ultimo dia de trabalho mesmo, vou embora meio alta.

Alta, preciso ter alta! Alta da angústia, da sabedoria, da dor, da vida! Executa, soma, processa, responde, julga, decide.
Decide
decido
descida
sem freios
Oh Deus, quão rápido eles mudaram tudo.
Quanto lhe devo?
Eu pago, diz ai! Não esquece de cobrar juros, multa e correção monetária. Porque não quero te ver nunca mais e também não quero arrependimento depois. Eu pago tudo de uma vez só, grita quanto é que eu pago. Eu pago, mas por favor, me deixa em paz. Me arranca um braço, mas me deixa em paz!

Vejo raposas na lua e disparo contra ela. Com armas e asas. Isso tudo me dá ânsia de vômito, nojo. Arranco outro pedaço de unha, viro pro lado e cuspo. Acerto o livro de poema do bukowsky aberto:

Which is a double failure: (o que seria um duplo fracasso:)
the failure of people (o fracasso de uma pessoa)
in poetry (na poesia)
and the failure of people (e o fracasso de uma pessoa)
in life. (na vida.)
and when you fail in poetry (e quando você falha na poesia)
you fail life, (você erra a vida,)
and when you fail life (e quando você falha a vida)
you were never born (você nunca nasceu)
no matter what the statistics (não importa o que digam as estatísticas)
or what you mother named you. (nem qual o nome que sua mãe lhe deu.)

Será que falhei na poesia? Será que errei a vida? Oh Deus, eu rogo uma vez mais: cobra que eu pago. Você fez eu esquecer meus sonhos. Nem escrever eu consigo mais. Fico atônito, olhando a barrinha do word piscar na solidão imensa dessa segunda página. Fotografia p&b em céu cinza. A sombra da minha mão na sombra da vida na sombra do mundo em meu teclado branco. Eu amo esse teclado branco. Acho que é uma das poucas coisas que ainda amo nessa vida. Esse teclado branco e minha 250 na garagem. Penso isso tudo enquanto a vida do peixe se esvai em minha mão…

Já atravessou a rua sem olhar pros lados? Faz horas que não consigo mais fazer isso. To sempre vigiando. Observando. Paranóico. Analisando. Desculpas, explicações, falhas, presenças. Cresci numa família de seis filhos, onde a vida inteira os cinco irmãos mais velhos me mostraram o que eu não deveria fazer. Fiquei louco, é isso. E nem esforço fiz.

Vejo o mundo com olhos crus. E isso é cruel. Há quem já tenha me dito que é um dom. Pega pra ti então. Troco pela tua ignorância e falta de bom senso. Porra, como é que se escreve senso? Deve ser com duas pitadas de sabedoria e oito colheres cheias de discernimento.

Sabe, to comecando a odiar essa palavra. Discernimento. O que é discernimento em um mundo onde não há regras, parâmetros, conduta exemplar? Nascer, crescer, estudar, graduar, casar, filhos, um bom trabalho e ser feliz pra sempre… que grande mentira!
Mentira
me tira
me tira daqui, eu nasci no século errado. Ou será que todas as gerações futuras também serão pioneiras no que diz respeito a mudança cultural?

- Senta aqui filha. Conta pro papai: deu pra quantos ontem?

Ontem
Tempo atrás, admirável mundo velho! É só uma canção moderna de rock….
e há um choro final
e o que era ouro vira cinzas
o que era rápido fica lento
o amor torna-se ódio
um choro final
delírio vira loucura
o pai vira copo – isso sempre tem né!
sax em guitarra
um choro final
cão em escorpião
mulher em mãe
um choro final
escorreu
..
.
.
.
.
.
.
.
.
pingou

n o e s p a c o d o
t e c l a d o
b r a n c o



Jero Sep. 2005
Pic. Bolivia, Feb 2006