quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aflora e a Fauna





Meus pêlos eram arrancados pela lâmina, que seca, texturizava minha face. Maldita hora de realizar boa ação e ficar sem creme de barbear. Maldita hora de resolver fazer a barba, depois de dois anos de abstinência total a palidez de minha pele facial que salta aos olhos quando nua fica. Maldito dia. Maldito Deus. Sim, quero ser expurgado do paraíso, quero que se foda. Como disse certa vez uma amiga que nunca encontrei, é quando estamos tristes que o melhor da gente aflora. Então tá ai C., meu melhor vai aflorar hoje. E vai te engolir, já que isso eu não consegui fazer. Meu melhor vai aflorar. Vai, aflora! A flora e a fauna. A fauna que convive comigo. Creme de barbear de Ramamelis, amigo que buzina pedindo emprestado o memory stick, peixe colocando pânico no aquário, Fundo de Investimentos, o Carmelo gritando no meu quarto, meu amigo japa que não conheci, a prestação da moto, o livro do Kerouac que nunca tive coragem de abrir, o amigo que leva 10 dias pra tomar um café comigo, a empregada que ganha uma miséria e ainda sustenta o pai que é doente… socorro!

Socorro, só corro, corro e meu joelho dói. Assim como a dor que sinto agora expele de minhas veias a energia negativa acumulada, e rasga meus poros fazendo com que eu fique mais imune á toda sujeira existente nessa porra de mundo que habitamos. Não, eu não pertenço a esse lugar. Eu não pertenço a esse plano espiritual pobre e feio. Eu não nasci pra bater porta. Eu nasci pra virar mesa. Eu nasci pra cortar grama no verão e beber vinho tinto no inverno. Eu sou alienígena. E se Deus ficar bravo comigo e me expurgar, eu me teletransporto lá pra dentro de novo. Dentro dela, quentinho, bem devagarinho, devagarinho como o dia em que cheguei de mansinho no escritório do meu irmão e peguei ele exatamente na hora em que ejaculara nas próprias mãos.

Ri, ele riu também. Riu, rio que me leva. Rio Guarita, Rio de Janeiro. Rio Guarita que leva meus sonhos através de suas curvas sinuosas, através de seus barrancos e de suas águas turvas. Rio de Janeiro que carrega minha vida num mergulho no Arpoador, num chopp barato na esquina, no por do sol que funde o arranha-céu com a favela e o azul infinito do mar. Mar que espuma, assim como ódio, como cachorro, como jogador expulso do jogo. Faz parte desse jogo, dizer ao mundo todo, que só conhece o seu quinhão ruim… Sim, esse é meu quinhão ruim, a inveja que transcende o consciente, a cumplicidade entre loucura e covardia.
- Pai, o senhor viu que tem um de seus passarinhos que está ferido logo acima do bico?
- Não.
- E tá em carne viva pai!
- Não vi. Qual?
- Esse pai – disse-lhe apontando para a gaiola.
- Mas é o meu campeão, homem!!
Sim, loucura, covardia, amor, ética, simplicidade, compreensão, conservadorismo, relatos de uma vida que se acaba em outra Bohemia destampada. Fácil, assim, fim.








Jero Mar 2006




Pic. Amazonia, May 2008





quarta-feira, 8 de junho de 2011

More than a lot!


Eis meu problema: me injetaram disciplina demais no cérebro.

Pic. Mostardas, Sep 2011