
Tarde cinzenta, típica de inverno. As ruas se exibem molhadas pra solidão das calçadas. Solidão que quebro a passos lentos e pensamentos intensos. Alcanço a Osvaldo e contemplo os coqueiros que se perdem nas nuvens carregadas do céu. O barco de meus sentimentos atravessa o Atlântico e atraca em Londres, onde caminhava em tardes de muito frio e fog, abandonado, como se fosse um estranho no mundo.
A medida que encurto os passos, comeco a conversar em voz alta comigo mesmo. E me pergunto se não ando falando pouco com Deus por andar falando muito comigo mesmo. Ando falando pouco com Deus por andar falando muito comigo? Não que eu fosse Deus ou algo qualquer que se pareça. Mas se Deus está em toda parte, ele também está comigo agora. E se está comigo agora, ao falar comigo mesmo, falo também com Deus. Então percebo que o sentimento que tenho ao dialogar comigo mesmo é exatamente o mesmo daquele que tenho ao explanar para Deus. Tudo se encaixa de forma curiosa.
Alongo os passos para atravessar a rua e pedir um cigarro de canela avulso. Acendo, puxo, não prendo e solto a fumaça, o braço esquerdo, a voz que acompanha Solenm Thirsty ao pé do ouvido, a lágrima que corre o rosto e estraçalha junto ao chão úmido de gotas que despencam do céu.
Sinal vermelho. Pára onibus. Caminho eu. Um cego esquizofrênico, sem mover os pés, balança seu corpo para frente e para tras num vai-e-vem incessante. Segura seu cajado junto ao peito e vocifera palavras cruas ao vento gelado da noite que tenta nascer. Fala com alguém que nem mesmo ele pode ver:
- Sexta-feira é atropelamento.
É tudo que escuto ao passar por ele, sem interromper o olhar ao distante telhado da galeria. Telhado que me carrega novamente a Londres. Me carrega para Convent Garden, para um triste passeio solitário através dos malabaristas, palhacos e mímicos que ganham a vida de trocado em trocado.
A buzina de um carro faz com que eu volte a Osvaldo. Levo a mão ao bolso, pego o celular e ligo para mim mesmo, na intenção de deixar uma mensagem de voz com os principais tópicos do que agora escrevo. Não funciona. Então ligo para o celular de um amigo pensando em deixar um recado pra ele. Novo fracasso. Sequer atravessei o oceano pela primeira vez. O tempo pra deixar a mensagem não permitiu. Aliás, o tempo nos impede de tanta coisa.
Entro em uma loja de roupas onde descolo um papel e um bloco de anotações. Sento-me no banco que fica em frente a loja, dou uma tragada e comeco a rascunhar os últimos minutos vividos.
- É o senhor que está fumando um cigarro de canela – indaga um mendigo.
- É sim – respondo.
- Tem um sobrando?
- Pô, não tenho.
- Eu te compro – afirma ele puxando algumas notas amassadas do bolso de suas calças.
- Não tenho mesmo, comprei esse avulso.
Vira-se, encara a calçada brevemente e parte.Volto ao texto. Risco duas palavras e acabo voltando minha atenção ao mendigo. Caminhara não mais que dez metros. Assovio. Ele pára, gira seu tronco e olha para mim. Faço sinal para que volte.
- Eu divido o cigarro contigo. Pode ficar com o que restou – digo estendendo-lhe a mão.
- Dizem que é bom pra gripe né!?
- Cara, eu acho que isso só pode piorar a sua gripe. Mas com certeza pode te fazer um bem danado pra alma.
Toca o fone. Atendo.
- Traga sal e carvão!
Jero Sep 2005
Pic. Mostardas, Apr 2011