(...) sentia raiva. Uma raiva incontida. Sentia raiva das coisas, das pessoas. Sentia raiva da vida. Até os objetos lhe proporcionavam o crescimento de tal sentimento. Olhava para uma cadeira e tinha vontade de quebra-la.
Nessas ocasiões conseguia extrair o que cada pessoa tinha de pior, somente num rápido olhar. Se proferisse tudo o que sentia sobre uma pessoa qualquer, fosse um estranho, um familiar ou ainda um grande amigo, faria com que esta se sentisse um lixo. Seus pensamentos compilavam os piores adjetivos que alguém sozinho, alguém por si só, não teria conhecimento suficiente para elenca-los.
Não era uma forma de pensar ou de ver o mundo. Ele sentia isso tudo. Era desprezo. Desprezo pela pessoa alheia, pelo sol - se sol fizesse - , pela chuva - se chovendo estivesse - , pelo coração pulsando, pelo ar que respirava.
Não era razão ou a falta dela. Era sentimento puro, nato, branco. Ele sentia isso tudo. Estava entranhado ao longo de cada milímetro de seu aparelho circulatório. Em suas veias corria uma acidez implacável, imbatível.
Qualquer palavra que lhe dirigissem era rebatida com impetuosidade. Seu cérebro tencionava e guarnecia-se de palavras feito uma espingarda. Qualquer toque no gatilho, por mais suave que fosse, resultava em pólvora, adjetivos e verbos acertando tudo e todos que o cercassem.
Como era de se esperar, essa raiva incontida provocava ressacas sentimentais e, em inúmeras oportunidades, revelava a hipocrisia alheia daqueles que tinham o péssimo hábito de dissimular. Era um defeito, lógico, mas era realizado com tamanha facilidade que se tornava talento puro. Era fácil como pescar num barril.
Jero Dec 2010
Pic. Palmeira das Missoes, May 2009