Já em movimento, soltei o cronômetro. Pedalando forte, completei e primeira volta ao passar pelo primeiro poste, contado a partir da esquina: 1 min e 47 segundos. Sentindo toda a extensão dos músculos das pernas, as primeiras voltas foram ficando para trás. Energia sobrando, pulmão vendendo oxigênio, endorfina acertando o sistema central em cheio. Conversão á esquerda se aproximando. Faço o traçado bem fechado, pra usar toda a largura da rua após a curva, imaginando a hipótese de um carro vir no sentido oposto. O pedal quase acerta o meio fio.
O vento gelado traz o cheiro de grama recém cortada. Última esquina antes de completar mais uma volta. Miro o relógio no pulso que aponta 1 min e 30 segundos. Em 7 segundos completo o trajeto e reduzo o tempo em pelo menos 10 segundos. Meu corpo se enquadra no ângulo correto pra vencer a curva em alta velocidade, enquanto meus olhos deixam o relógio e encontram o carro imaginado na esquina anterior.
Procuro equilibrar a força em ambos os freios, dianteiro e traseiro, mas esse último já andava ruim há tempos. A roda dianteira tranca, o pneu oposto levanta e me arremessa metros a frente. Caio forte com mão e cotovelo esquerdos no chão. A mão vai raspando o asfalto, levando consigo pedras, pó, piche, tempo, pele, ilusões e vontade de viver. Paro ao lado da porta do veículo. O caroneiro me observa incrédulo. Digo que está tudo bem, levanto, pego a bicicleta e saio caminhando ao seu lado. O pedal não gira mais. A corrente trancou entre o quadro preto fosco e a roseta. Sem pensar enfio os dedos na corrente emperrada. Após considerável esforço, consigo devolvê-la a seu lugar de origem. A superfície de minhas mãos e dedos está dividida entre sangue e graxa.
A vida é engraçada. Engraçada e engraxada. Junto um pedaço de papelão do chão, onde esfrego os dedos e tiro parte do grosso da graxa. Olho pro meu joelho que me devolve sangue brilhando feito diamante. Um pequeno delta de sangue se desenha. Alguns afluentes serpenteam pêlos e perna abaixo, já se aproximando do tornolezo. Lembrei de meu amigo Buk, e obriguei-me a concordar com ele, quando afirma que o que leva o homem ao manicômio não são as coisas grandes e importantes. O homem está preparado para a morte, o incêndio, assassinato, roubo, incesto. Não. O que leva o homem ao manicômio é a série continua de pequenas tragédias... não é a morte do seu amor, mas o cordão que se rompe quando ele está com pressa.
A vida é mesmo engraçada. Observar aquele sangue todo, talvez por me remeter a infância, quando o normal era não ter os joelhos esfolados, me trouxe uma sensação boa. Uma sensação de estar vivo. Sabe aquelas ocasiões em que você se pega fazendo alguma bobagem qualquer e pensa "que bom, estou vivo!"
Lembro de estar caminhando, atravessando Porto Alegre, com uma puta dor nas pernas após um dia de trabalho precedido de um trago, e sentir a mesma sensação. Lembro de atravessar a Ferreira Viana tapada de folhas e flores, num gol de um dos meus irmãos que dirigia e conversava com o outro irmão, sentado ao lado, enquanto eu molhava a garganta com uma cerveja, num domingo lindo de sol, inverno começando... Num gol fudido, refrigerado a ar. Mas vivo. Fudido e feliz. Vivo de fudido.
Uma injeção de ânimo me agulhou. Pedalei forte, só chegando em casa uns trinta minutos depois. Deixei a água caindo sobre o joelho, levando o sangue diamante escorrer ralo abaixo, enquanto me contorci em dor. Dor provocada pelo contato da água com a mistura de sangue e secreções expelidas pelo meu joelho. Dor de vida. Estou vivo, e é o que vale.
Jero 07/oct/08
Pic. Salvador, Sep 2009